17 de maio de 2013

MÚSICA DO DIA [17.05.13]


Eu sou um pouco menos do que eu quero e muito mais do que não. [Tanlan]

Tanlan - Vaidade

OS PLANOS DE DEUS

|17 DE MAIO|


EM CRISTO surgiu um novo tipo de ser humano; e o novo tipo de vida que começou com ele deve ser internalizado em nós.
Como isso acontece? Primeiro, lembre-se de como adquirimos o velho e ordinário tipo de vida. Nós a recebemos dos outros, dos nossos pais e ancestrais, sem o nosso consentimento e por um processo muito curioso que envolve prazer, sofrimento e perigo. Um processo que você jamais teria imaginado. A maioria de nós passa muitos anos da infância tentando reconhecê-lo. Há crianças que, quando ouvem falar disso pela primeira vez, não acreditam - e não sei bem se as condeno, pois é mesmo muito estranho. Agora, o Deus que elaborou todo esse processo é o mesmo que mostra como esse novo tipo de vida - a vida em Cristo - deve ser espelhada pelo mundo. Temos de estar preparados para o fato de esse processo ser estranho também. Ele não nos consultou quando inventou o sexo; e também não nos consultou quando fez esse outro processo. Existem três coisas que propagam a vida de Cristo em nós: o batismo, a fé e aquela misteriosa ação a que os cristãos dão diferente nomes (Santa Ceia, missa, Eucaristia): esses são, pelo menos, três métodos mais comuns. [...]
Não vejo por que essas coisas deve ser os fios condutores do novo tipo de vida. Mas, se não fosse assim, nunca veria qualquer conexão entre um prazer físico, particular e o aparecimento de um novo ser humano no mundo. Temos de aceitar a realidade como ela é: não é nada bom ficar falando bobagens sobre como ela deveria ser ou como esperaríamos que fosse.

[C. S. Lewis]
- de Mere Christianity [Cristianismo Puro e Simples]

16 de maio de 2013

TODOS OS BONS MESTRES SÃO SERVOS

|16 DE MAIO|

A PERGUNTA que queremos fazer sobre o papel central do homem nesse drama está no mesmo patamar que a questão dos discípulos: "Qual deles era o maior?". Trata-se do tipo de pergunta da natureza não-humana, ou até mesmo da natureza inanimada, parece um mero subproduto da sua própria redenção, então, da mesma forma, do ponto de vista não-humano, a redenção do homem pode não parecer nada mais que as preliminares dessa primavera amplamente difusa. O próprio fato de a queda ter sido permitida pode ter sido em vista esse fim maior. Ambas as atitudes serão corretas se consentirem em eliminar as palavras simples e simplesmente. Onde há um Deus que age de forma totalmente proposital e inteiramente previsível sobre uma natureza que está toda interligada, não podem haver acidentes ou acasos que nos permitam usar com segurança a palavra simplesmente. Nada é "simplesmente um subproduto" de qualquer outra coisa. Todos os resultados são intencionais desde o princípio. Tudo que é secundário de acordo com o ponto de vista é o propósito principal de acordo com outro. Nenhuma coisa ou acontecimento ocupa a primeira posição ou está mais alto, de forma que isso o impeça de ser, ao mesmo tempo, o último e o mais inferior. O parceiro que se curva diante do outro em um movimento da dança, recebe a reverência do outro no próximo. Achar-se no alto ou no centro significa abdicar continuamente; ser colocado em posição inferior, significa ser elevado. Todos os bons mestres são servos; Deus lava os pés dos seres humanos.

[C. S. Lewis]
- de Miracles [Milagres]

15 de maio de 2013

MINHA PRÓPRIA PERSONALIDADE

|15 DE MAIO|

QUANTO mais nos livrarmos do que agora chamamos de "nós mesmos", mais nos tornaremos verdadeiramente nós mesmos. Há tanto dele que milhões e milhões de "pequenos Cristos", todos diferentes entre si, ainda seriam pouco para expressá-lo completamente. Ele criou todos. Ele inventou - como um autor inventa seus personagens em uma novela - toda essa variedade de homens e mulheres que somos. Nesse sentido, nossos verdadeiros "eus" estão todos esperando por nós nele. Não é recomendável tentar ser eu mesmo sem ele. Quanto mais eu resistir a ele e tentar viver por mim mesmo, mais dominado serei pela minha própria herança, criação, meio social e desejos naturais. De fato, o que eu tão orgulhosamente chamei de "meu próprio eu" acaba se tornando o lugar de encontro para uma série de eventos a que eu jamais dei início e que eu não consigo mais parar. O que eu chamo de "meus desejos" acabam se tornando meramente os desejos que emergem do meu organismo físico ou os desejos empurrados para dentro de mim pelos pensamentos dos outros, ou até sugeridos pelos demônios. Ovos mexidos, bebida e uma boa noite de sono; é isso que está na origem do meu engano em pensar que foi a minha decisão pessoal e distinta de fazer amor com a garota sentada à minha frente na cabine do vagão de trem. A propaganda é o que está na origem do que eu chamo de minhas ideias políticas. Eu não sou, em meu estado natural, nem de perto, a pessoa que gostaria de ser. A maior parte do que eu chamo de "eu" pode ser muito facilmente explicada. É quando eu me volto para Cristo, quando me entrego à sua personalidade, que eu começo a ter uma personalidade para mim mesmo.

[C. S. Lewis]
- de Mere Christianity [Cristianismo Puro e Simples]

14 de maio de 2013

IMAGINE SER QUEM VOCÊ REALMENTE É

|14 DE MAIO|

TORNAR-SE uma nova pessoa significa perder o que hoje chamamos de "nós mesmos". Temos de sair de nós mesmos e adentrar em Cristo. A nossa vontade e os nossos pensamentos devem se tornar como os dele. Temos de ter a "mente de Cristo", como dizem as Escrituras. Porém, se Cristo é um, e ele está em todos nós, isso significa que somos todos exatamente iguais? Certamente soa como se fosse assim; mas na verdade não é nada disso.
É difícil conseguir uma boa ilustração, pois é claro que nenhuma coisa se relaciona com outra da mesma forma que o criador relaciona-se com qualquer de suas criaturas. Porém, tentarei apresentar duas ilustrações muito imperfeitas que podem nos dar uma noção da verdade. Imagine um grupo de pessoas que sempre viveu no escuro. Então você tenta lhes descrever a luz. Você pode até dizer que, se elas vierem à luz, essa luz incidirá sobre todas elas e que assim se tornarão o que chamamos de visíveis. Não é bem possível que elas imaginem que, se receberem todas a mesma luz e reagirem da mesma forma (isto é, todas refletindo a luz), todas acabarão parecidas? Porém, você e eu sabemos que a luz, de fato, revelará quão diferentes essas pessoas são. Ou então, imagine uma pessoa que não saiba nada sobre o sal. Ao lhe dar uma pitada para provar, ela expressará um gosto forte e intenso, todo particular. Então você lhe contaria que no seu país as pessoas usam sal em toda a culinária. E ela poderia perguntar: "Nesse caso, eu suponho que todos os seus pratos tenham exatamente o mesmo gosto, porque o gosto deste condimento que provei é tão forte que absorveria o gosto de tudo o mais". Porém, você e eu que o efeito real do sal é exatamente oposto. Longe de tirar o gosto do ovo, do fígado ou do repolho, na verdade, ele os ressalta ainda mais. Esses alimentos não mostram o seu gosto verdadeiro enquanto o sal não é adicionado.

[C. S. Lewis]
- de Mere Christianity [Cristianismo Puro e Simples]

13 de maio de 2013

RECONHECENDO O NOVO HOMEM EM CRISTO

|13 DE MAIO|

O NOVO passo já foi e continua sendo dado. O novo homem já se encontra por toda a terra. Alguns, como admiti, são quase irreconhecíveis; mas outros são facilmente reconhecidos. De vez em quando os encontramos. Sua própria voz e seu rosto são diferentes dos nossos: mais fortes, mais calmos, mais felizes, mais radiantes. Começam onde a maioria de nós desiste. Eles são, como eu disse, reconhecíveis; acontece que você precisa levar em conta o que está procurando. Eles não tem nada a ver com a ideia de "pessoas religiosas" que você deve ter formado a partir das suas leituras. Eles não costumam chamar atenção sobre si mesmos. Você tende a pensar que está sendo amável com eles, quando na verdade, eles é que estão sendo amáveis com você. Eles o amam mais do que as outras pessoas, mas necessitam bem menos de você. (Temos de superar o desejo de ser necessários; em algumas pessoas bondosas, especialmente as mulheres, essa é a tentação mais difícil de resistir). Eles normalmente parecem ter bastante tempo, e você ficará se perguntando como conseguem. Depois de ter reconhecido um deles, será mais fácil reconhecer o próximo. E eu suspeito que eles se reconhecem imediatamente e de forma infalível, independente de cor, sexo, classe, idade e até mesmo credo. Nesse sentido, tornar-se santo é como aderir a uma sociedade secreta. Em suma, deve ser muito divertido.

[C. S. Lewis]
- de Mere Christianity [Cristianismo Puro e Simples]

12 de maio de 2013

ALGUM DIA CAVALGAREMOS SEM SELA

|12 DE MAIO|

TENTAR esquivar-se de tudo o que chamamos de natureza na espiritualidade negativa seria como se nós fugíssemos dos cavalos, em vez de aprender a montar. Há muito espaço (mais do que a maioria de nós desejamos), na nossa atual condição de peregrinos, para abstinência, renúncia e mortificação dos desejos naturais. Porém, o pensamento principal por trás de todo o ascetismo deve ser: "Quem irá confiar-nos a verdadeira riqueza se não formos fiéis nem mesmo com a riqueza que perece?". Quem me confiaria um corpo espiritual, se nem sequer consigo controlar um corpo terreno? Esses corpos pequenos e frágeis que temos agora nos foram dados como os pôneis são dados a garotinhos. Temos de aprender a manejá-los. Não para um dia estarmos completamente livres dos cavalos, mas para que possamos, um dia, ser capazes de cavalgar sem sela, confiantes e alegres, aquelas montaria enormes, aqueles cavalos alados, brilhantes, que fazem o mundo tremer, que até hoje estão nos esperando com impaciência, batendo com os cascos e rufando ansiosamente nos estábulos do rei. Claro que esse galope não valeria alguma coisa, a não ser que fosse um galope como rei. Mas de que outro modo, desde que ele reteve seu próprio cavalo de guerra, poderíamos acompanhá-lo?

[C. S. Lewis]
- de Miracles [Milagres]

11 de maio de 2013

NÃO BASTA SER LEGAL

|11 DE MAIO|

A "BONDADE" - ter uma personalidade sadia e íntegra - é excelente. Devemos procurar por todos os meios ao nosso alcance, sejam médico, educacionais, econômicos e políticos, produzir um mundo em que o maior número de pessoas cresçam sendo "legais", da mesma forma que devemos tentar contribuir para um mundo em que todos tenham o suficiente para comer. Porém, não devemos supor que, mesmo se tivermos sucesso em tornar todas as pessoas em seres humanos bons, suas almas estarão salvas. Um mundo de gente boa, contente consigo mesmo, que não olha adiante, distante de Deus, seria tão desesperadamente necessitado de salvação, quanto um mundo miserável - e talvez fosse difícil de ser salvo.
O simples aperfeiçoamento não significa redenção, embora a redenção sempre melhore as pessoas, até mesmo aqui e agora, e no final, as aperfeiçoará num grau que ainda não podemos imaginar. Deus se fez homem para transformar suas criaturas em seus filhos: não simplesmente para melhorar o velho homem, mas para produzir um novo tipo de homem. Não se trata de ensinar um cavalo a pular cada vez melhor, mas de transformar um cavalo em um ser alado. É claro que, uma vez adquiridas as asas, ele levantará voo por sobre obstáculos que antes nunca teriam sido vencidos e, com isso, acabará derrotando o cavalo comum no seu próprio jogo. Contudo, poderá haver um período, enquanto as asas ainda estiverem começando a crescer, em que ele não poderá fazê-lo. E nesse estágio as protuberâncias em seus ombros - ninguém que as veja diz que irão se transformar em asas - talvez até lhe deem uma aparência desajeitada.

[C. S. Lewis]
- de Mere Christianity [Cristianismo Puro e Simples]

10 de maio de 2013

COM A AJUDA DE DEUS

|10 DE MAIO|

LEMBRE-SE: esse arrependimento, essa submissão volitiva para a humilhação e esse tipo de morte não é algo que Deus exige de você antes de resgatá-lo ou algo do qual ele pudesse dispensá-lo se assim o quisesse. Trata-se simplesmente de uma descrição da experiência de voltar para Deus. Se você pedir para voltar para Deus pulando essa parte, está pedindo para voltar para ele, sem se voltar para ele. E isso é impossível. Então, precisamos passar por tudo isso. Porém, a mesma maldade que nos faz precisar de ajuda nos torna incapazes de obtê-la. Será que poderemos obtê-la se Deus nos ajudar? Sim, mas o que estamos querendo dizer quando falamos em Deus nos ajudar? Significa Deus colocando algo de si em nós mesmos. Ele nos empresta um pouco de seus poderes racionais e é assim que pensamos. Ele coloca em nós um pouco do seu amor e é assim que amamos uns aos outros. Quando você ensina uma criança a escrever, pega a mão dela enquanto ela forma palavras. Isto é, ela forma as palavras porque é você que as está formando. Nós amamos e raciocinamos porque Deus ama e raciocina, e pega a nossa mão enquanto fazemos isso.

[C. S. Lewis]
- de Mere Christianity [Cristianismo Puro e Simples]

9 de maio de 2013

ENTREGA TOTAL

|9 DE MAIO|

SE DEUS tinha condições de nos deixar escapar, por que ele não deixou? E que sentido poderia haver em punir uma pessoa inocente no lugar? Não consigo enxergar a razão, se você está pensando em punição no sentido policial. Por outro lado, se você pensar em um dívida, há muito mais a se dizer de uma pessoa que tem algumas posses e paga por aquela pessoa que não as tem. Ou, se você entender "pagar o preço", não no sentido de ser punido, mas no sentido de aguentar as consequências, ou "pagar uma conta", então, quando alguém se encontra no fundo do poço, o trabalho de tirá-la de lá normalmente recai sobre um bom amigo.
Agora, que "buraco" é esse em que o ser humano se meteu? Ele tentou viver de forma independente, como se pertencesse a si mesmo. Em outras palavras, o ser humano decaído não é simplesmente uma criatura imperfeita que precisa ser aperfeiçoada; trata-se de uma rebelde que precisa entregar as suas armas. Baixar as armas, entregar-se, dizer que você lamenta, que estava no caminho errado e que está pronto para começar a vida de novo - eis a única saída para fora do nosso "buraco". Esse processo de entrega - esse movimento para trás - é o que os cristãos chamam de arrependimento. Acontece que o arrependimento não tem nada de divertido. Trata-se de algo muito mais difícil do que simplesmente desculpar-se. Significa desaprender todo tipo de autoconceito e vontade própria que estivemos alimentando e retroalimentando por anos a fio. Significa destruir uma parte de nós mesmos, passando por uma espécie de morte. Na verdade, é preciso ser bom para se arrepender. Mas é aí que está a dificuldade. Só uma pessoa má precisa de arrependimento; acontece que só uma pessoa boa pode se arrepender de forma perfeita. Quanto pior você é, mais precisará se arrepender e menos poderá fazê-lo. A única pessoa capaz de fazê-lo de maneira perfeita seria uma pessoa perfeita - e essa não teria a necessidade nenhuma de fazê-lo.

[C. S. Lewis]
- de Mere Christianity [Cristianismo Puro e Simples]

8 de maio de 2013

NÃO É JUSTO

|8 DE MAIO|

JÁ OUVI gente se aproximando de que, se Jesus era tanto Deus quanto homem, então os seus sofrimentos e a sua morte perderiam todo o valor, já que "para ele deve ter sido fácil". Outros poderiam (com muita propriedade) censurar a ingratidão e falta de graça dessa objeção. O que me abala nisso tudo são os mal-entendidos a que isso leva. Em certo sentido, os que assim pensam estão corretos. Eles até entenderam bem sua própria questão. A submissão perfeita, o sofrimento pleno e a morte perfeita não forma apenas mais fáceis para Jesus porque ele era Deus - só foram possíveis porque ele era Deus. Contudo, essa não é uma razão um tanto estranha para não aceitar o que ele fez? O professor é capaz de desenhar as letras para uma criança porque ele é adulto e sabe escrever. Isso, sem dúvida, torna tudo mais fácil para o professor; e só porque é mais fácil para ele é que ele pode ajudar a criança. Se esta o tivesse rejeitado porque "é fácil para adultos" e esperasse para aprender a escrever alguma coisa com alguma outra criança que não soubesse, ela não avançaria muito rápido. Imagine que eu estivesse me afogando num riacho e uma pessoa, que ainda tivesse um dos pés na margem, me estendesse a mão para salvar minha vida. Será que eu teria o direito de gritar (quase me engasgando): "Não, não é justo! Você está em vantagem! Você está com um pé na margem"? A vantagem - chame-a de injustiça, se quiser - é a única razão pela qual ela pode me ajudar. Onde você acha que encontrará ajuda se não fixar os olhos no que é mais forte do que você?

[C. S. Lewis]
- de Mere Christianity [Cristianismo Puro e Simples]

7 de maio de 2013

NECESSIDADES VICÁRIAS

|7 DE MAIO|

CERTAMENTE você me perguntará: será que isso tem tanta importância assim? Isso não é injustiça, ainda que vista pelo outro lado? Se a princípio acusamos Deus de ter dado alguma vantagem indevida aos seus "eleitos", sentimo-nos agora tentados a acusá-lo do contrário: de um injusto desfavorecimento (é melhor deixar de lado a tentativa de manter as duas acusações ao mesmo tempo). Aqui certamente chegamos a um princípio que está profundamente arraigado no cristianismo, e que poderia ser chamado de sacrifício vicário. O homem sem pecado sofre pelos pecadores e, proporcionalmente, todos os bons pelos maus. E essa vicariedade - não menos que a morte, o renascimento e a seletividade - é mais uma característica da natureza. A autossuficiência, viver pelos próprios recursos, é algo impossível em seu âmbito. Todo mundo está em dívida com todo mundo e depende de todo o resto. E nesse ponto temos mais uma vez de reconhecer que o princípio em si não é nem bom, nem mau. O gato vive do rato de um modo que considero mau; as abelhas e as flores vivem na dependência uma das outras de uma forma muito prazerosa. O parasita vive no seu "hospedeiro", da mesma forma que uma criança não nascida vive em sua mãe. Sem a vicariedade, não haveria exploração ou opressão na sociedade; mas também não haveria bondade ou gratidão. Trata-se de uma fonte de amor e de ódio; de miséria e de felicidade. Quando tivermos entendido isso, não mais acharemos que os exemplos depravados da vicariedade na natureza nos proíbem de supor que o princípio em si tem origem divina.

[C. S. Lewis]
- de Miracles [Milagres]

6 de maio de 2013

DE CARONA PRO ARENA #2

VIDA NOVA

|6 DE MAIO|

AO LONGO da jornada, Deus não é ninguém a não ser ele mesmo e o que ele faz é incomparável. Dificilmente acharíamos que não deveria ser assim.
Então, que diferença ele fez para toda a raça humana? Foi simplesmente isso: o processo de se tornar filho de Deus, de passar de algo criado para algo gerado, de transcender da vida biológica temporária para a vida espiritual e eterna, foi feito por nós. A humanidade já está "salva" em princípio. Cada um de nós tem de se apropriar dessa salvação. Porém a parte realmente difícil, que não teríamos condições de fazer, foi feita por nós. Não precisamos tentar progredir na vida espiritual pelos nossos próprios esforços, ela já veio até a raça humana. Se apenas nos entregarmos àquele "homem" em quem ela estava completamente presente e que, embora sendo Deus, também era um homem como os outros, ele a fará surgir em nós e por nós. Lembre-se do que eu disse sobre o "bom contágio". Alguém da nossa própria raça tem essa nova vida: se chegarmos perto dele, seremos contagiados.
É claro que é possível expressar essa verdade de outras maneiras. Pode-se dizer, por exemplo, que Cristo morreu por nossos pecados. Pode-se dizer que o Pai nos perdoou, porque Cristo fez por nós o que nós deveríamos ter feito. Pode-se dizer que fomos lavados pelo sangue do Cordeiro e que Cristo venceu a morte. Todas essas afirmações são igualmente verdadeiras.

[C. S. Lewis]
- de Mere Christianity [Cristianismo Puro e Simples]

5 de maio de 2013

O PADRÃO EXATO DA REALIDADE

|5 DE MAIO|

A HUMANIDADE precisa abraçar a morte voluntariamente e submeter-se a ela com humildade total. É preciso bebê-la até o fim, convertendo-a naquela morte mística que é o segredo da vida. Somente um homem que não tivesse necessidade alguma de ser homem (a não ser que o tivesse escolhido), alguém que já tivesse servido como voluntário nesse nosso lamentável exército, e que fosse, ao mesmo tempo, humano, poderia experimentar essa morte perfeita. E assim, ou você derrota a morte ou a redime. Ele provou a morte no lugar de todos nós. Ele é o grande "Moribundo" do universo: e, por essa mesma razão, é a Ressurreição e a Vida. Por outro lado, pelo fato de realmente viver, ele realmente morre, pois esse é o padrão exato da realidade. Porque o maior de todos pode descer até o menor, aquele que tem, por toda a eternidade, constantemente, se lançado à sagrada morte da autoentrega ao Pai, pode também mergulhar na terrível e (para nós) involuntária morte do corpo. Sendo o sacrifício vicário a própria linguagem da realidade que ele criou, sua morte pode vir a ser a nossa. Todo o milagre, longe de negar o que já sabemos sobre a realidade, é uma nota explicativa que dá clareza a esse texto obscuro; ou melhor, ele se revela como sendo o texto em que a natureza não passa de uma simples nota. Na ciência, tudo o que fazemos é ler os versos de um poema; no cristianismo, deparamo-nos com o poema todo.

[C. S. Lewis]
- de Miracles [Milagres]

4 de maio de 2013

A GRANDE ARMA

|4 DE MAIO|

POR um lado, a morte é o triunfo de Satanás, a punição pela queda e o último inimigo. Cristo derramou lágrimas no túmulo de Lázaro e suou sangue no Getsêmani. A Vida das Vidas que estava nele não odiou menos do que nós este castigo obsceno, mas muito mais. Por outro lado, somente quem perde a sua vida ganha-la-á. Somos batizados na morte de Cristo, e esse é o remédio para a queda. Na verdade, a morte é o que alguns indivíduos hoje chamam de "ambivalente". Ela é a grande arma de Satanás e, ao mesmo tempo, a grande arma de Deus: é sagrada e profana; nossa suprema desgraça e a nossa única esperança; aquilo que Cristo veio para conquistar e o meio pelo qual ele conquistou.

[C. S. Lewis]
- de Miracles [Milagres]

3 de maio de 2013

NESSE PONTO DA HISTÓRIA

|3 DE MAIO|

ACREDITAMOS que a morte de Cristo é exatamente o ponto da história em que algo absolutamente inimaginável vindo de fora, se revela ao nosso próprio mundo. E, se não conseguimos visualizar nem mesmo os átomos dos quais o nosso mundo é construído, é claro que não seremos capazes de compreender isso. Com efeito, se pudéssemos compreender este grande evento de forma completa, ele não seria tão grande quanto parece: tão inimaginável, tão "incriado", tão estranho à natureza, caindo sobre a terra como um raio. Você pode se perguntar que benefício isso pode nos trazer se não compreendemos este grande evento. Mas a resposta é fácil. Uma pessoa pode jantar sem entender exatamente de que forma a comida o alimenta. Uma pessoa pode aceitar o que Cristo fez por ela sem saber como isso se processa - na verdade, ela certamente não saberá como isso funciona até que tenha aceitado o fato.
Aprendemos que Cristo foi morto por nós, que a sua morte lavou os nossos pecados e que, morrendo, ele venceu a morte. Essa é a fórmula. Eis aí o verdadeiro cristianismo. É nisso que temos de acreditar.

[C. S. Lewis]
- de Mere Christianity [Cristianismo Puro e Simples]

2 de maio de 2013

...ELE CONTINUA OBEDECENDO

|2 DE MAIO|

Screwtape expõe as intenções do Inimigo [Deus]

PASSAR por cima da vontade humana (como a mínima e mais sutil percepção da sua presença certamente o faria) seria inútil para ele. O Inimigo [Deus] não é capaz de violentar ninguém. Ele só pode atrair. A sua ideia desprezível é realizar algo contraditório. As criaturas devem se unir a ele, ao mesmo tempo em que permanecem sendo elas mesmas. A simples supressão de suas personalidades ou a sua assimilação não servirá.  Ele está preparado para se impor um pouco no começo. Ele os encorajará com percepções de sua presença, que, embora tênue, lhes parece incrível, com uma doçura emocional e com vitórias fáceis sobre a tentação. Porém, ele jamais permite que esse estado dure muito tempo. Mais cedo ou mais tarde ele se retira, se não de fato, pelo menos da sua experiência consciente, todos aqueles apoios e incentivos. Ele deixa suas criaturas andarem com as próprias pernas - para que completem por vontade própria os deveres que já perderam todo o sabor. É exatamente nesses vales, muito mais do que nos picos, que ocorrerá o processo de crescimento rumo ao tipo de criatura que o Inimigo [Deus] quer que o ser humano seja. Portanto, as orações oferecidas nos períodos de secura são as que mais lhe agradam. [...] Ele não pode "tentar" uma pessoa para a virtude da mesma forma que a tentamos para o vício. Ele quer que as pessoas aprendam a andar e por isso retira a sua mão; e se eles demonstram ao menos a vontade de andar, ele se agrada até nos seus tropeços. Não se iluda Wormwood! Não há perigo maior para a nossa causa do que o momento em que um homem, não mais desejoso, porém ainda decidido a fazer a vontade do Inimigo [Deus], olha ao seu redor e contempla um universo no qual cada sinal do Inimigo [Deus] parece ter desaparecido, se pergunta o porquê de sua desgraça, e ainda assim obedece.

[C. S. Lewis]
- de Screwtape Letters [Cartas ao Diabo a seu Aprendiz]

1 de maio de 2013

SERVOS QUE SE TORNAM FILHOS

|1 DE MAIO|

Screwtape revela as intenções do Inimigo [Deus]


AGORA, pode até ser surpresa para você entender que, em seus esforços para tomar posse permanente de uma alma, o Inimigo [Deus] confia muito mais no vales do que nos picos. Alguns dos seus favoritos tem passado por vales mais longos e profundos do que qualquer outra pessoa. Aqui está a razão: para nós, um ser humano é alimento; nossa meta é a absorção de sua vontade pela nossa, é aumentar o nosso ego às custas dele. Porém, a obediência que o Inimigo [Deus] exige do homem é algo bem diferente. Temos de encarar o fato de que toda essa conversa sobre o seu amor pelo ser humano e que o serviço prestado a ele leva a uma liberdade verdadeira não é (como gostaríamos de acreditar) mera propaganda, e sim uma verdade aterradora. O que ele quer é encher o universo com várias copiazinhas nojentas de si mesmo - criaturas cuja vida, em escala de miniatura, serão qualitativamente iguais à sua própria, não porque ele as tenha absorvido, mas porque as vontades destas criaturas se conformam livremente à dele. Queremos gado que afinal se torne a nossa comida; o que o nosso Inimigo [Deus] deseja são servos que tenham o potencial de se tornar seus filhos. Queremos enganar, ele quer se entregar. Nós estamos vazios e gostaríamos de ser preenchidos; ele está tão cheio, a ponto de transbordar. Nossa guerra é por um mundo que Nosso Pai [diabo] lá de baixo atrais todos os outros seres para si mesmo; o que o Inimigo [Deus] quer é um mundo cheios de seres que se unam a ele - mas que permaneçam distintos entre si.

[C. S. Lewis]
- de Screwtape Letters [Cartas ao Diabo a seu Aprendiz]

30 de abril de 2013

ALTOS E BAIXOS

|30 DE ABRIL|

Screwtape explica a lei da ondulação.
Sempre é válido lembrar que este livro deve ser lido do ponto de vista invertido.

SERES humanos são anfíbios: metade espírito e metade animal. A determinação do Inimigo (Deus) em produzir uma hibridez tão revoltante foi um dos fatores decisivos para que Nosso Pai (Diabo) retirasse o apoio a ele. Como espíritos, eles pertencem ao mundo eterno, mas como animais, habitam no tempo. Isso significa que, enquanto o seu espírito pode ser direcionado para um objetivo eterno, seus corpos, paixões e imaginações estão em contínua mudança, pois existir no tempo significa mudar. A sua máxima aproximação à constância, portanto, é a ondulação - a volta repetida ao nível no qual caíram tantas vezes, numa série de altos e baixos. Se você tivesse observado o seu paciente com cuidado, teria visto essas ondulações em cada departamento da sua vida; seu interesse pelo trabalho, sua afeição por seus amigos, seus desejos e gostos físicos, tudo vive num constante sobe e desce. Enquanto ele viver sobre a terra, períodos de riqueza e vivacidade emocional e corpórea se alternarão  com períodos de embotamento e pobreza. a secura e o tédio pelos quais o seu paciente humano está passando agora, não são, como você havia suposto de forma tão crédula, feitura sua. Eles são simplesmente um fenômeno natural que não nos fará bem algum, a menos que você tenha alguma utilidade para isso.

[C. S. Lewis]
- de The Screwtape Letter [Cartas do Diabo a seu Aprendiz]

29 de abril de 2013

#revo150


DOIS PONTOS FINAIS

|29 DE ABRIL|

SE parecer que eu compliquei um assunto tão simples, espero que você me perdoe. Estava ansioso para esclarecer dois pontos. Minha interpretação era erradicar aquele tipo de culto não cristão à individualidade do ser humano, que está arraigado no pensamento moderno, lado a lado com nosso coletivismo, pois um erro leva ao erro oposto e, longe de neutralizá-los, eles se agravam. Falo da noção pestilenta (podemos vê-la na crítica literária) de que cada um estreia com um tesouro chamado "personalidade" trancafiado dentro de si e que expandi-lo, expressá-lo, guardá-lo de qualquer interferência e ser "original" é o objetivo principal da vida. Isso é pelagianismo, ou algo pior, que acaba por derrotar a si mesmo. Nenhuma pessoa que valorize a originalidade será original. Porém, tente dizer a verdade da forma como você a vê; experimente fazer um trabalho bem feito motivado apenas pelo valor do próprio trabalho, e o que chamamos de originalidade surgirá de forma espontânea. Mesmo nesse nível, a submissão do indivíduo à função começará a trazer a verdadeira personalidade à tona. Em segundo lugar, queria mostrar que o cristianismo não se preocupa, a longo prazo, nem com os indivíduos nem com as comunidades. Nem o indivíduo, nem a comunidade, da forma como os entendemos, podem herdar vida eterna; nem o eu natural, nem a massa coletiva, mas somente a nova criatura.

[C. S. Lewis]
- de The Weight of Glory [Peso de Glória]

28 de abril de 2013

O EMPREGO CERTO

|28 DE ABRIL|

NOS dias de hoje, acabamos por inverter todo o quadro. Começamos pela doutrina de que toda individualidade possui um "valor infinito", e depois passamos a imaginar Deus como uma espécie de empresa empregadora cuja obrigação é encontrar carreiras apropriadas para cada alma, buracos quadrados para estacas quadradas. Na verdade, o valor do indivíduo não está nele mesmo. Não existe essa ideia de encontrar para ele um lugar apropriado no templo vivo, que faça justiça ao seu valor inerente e dê escopo às suas peculiaridades. Esse lugar estava lá antes de tudo. A propósito, o homem foi criado para ele. Ele jamais será ele mesmo enquanto não estiver lá, pois só poderemos ser autênticos, eternos e realmente divinos no céu - da mesma forma que podemos ser corpos coloridos somente na luz. 
Dizer isso é repetir o que todos já admitiram alguma vez na vida: que somos salvos pela graça, que não há nada de bom na nossa carne, que somos todos criaturas e não criadores, que não vivemos para nós mesmos, mas por Cristo.

[C. S. Lewis]
- de The Weight of Glory [Peso de Glória]

27 de abril de 2013

COMO SE TORNAR AMESTRADO

|27 DE ABRIL|

A VERDADEIRA personalidade se encontra mais além - o quanto, para a maioria de nós, não me atrevo a dizer. E a chave de acesso a ela não está em nós mesmos. A verdadeira personalidade não poderá ser obtida por um desenvolvimento de dentro para fora. Ela será conquistada quando ocuparmos aqueles lugares na estrutura do cosmo eterno para os quais fomos planejados e criados. Assim, como uma cor revela a sua verdadeira qualidade quando posta por um excelente artista em seu espaço previamente escolhido entre outras cores; ou como uma especiaria que revela o seu sabor especial quando posta entre os outros ingredientes conforme o desejo de um bom cozinheiro; ou com um cachorro que se torna domesticado somente quando acha o seu lugar na casa do seu dono - só nos tornaremos pessoas verdadeiras quando passarmos pelo sofrimento de termos sido colocados em nosso lugar. Somos como mármore à espera de modelagem, como metais à espera da forma. Não há dúvida de que já existam, mesmo no "eu" não-regenerado, leves pistas do molde para o qual cada um de nós foi concebido, ou do tipo de coluna em que este molde será transformadoPorém, acredito que seja um exagero comparar a salvação de uma alma, como geralmente se faz, com a transformação de um semente em flor. As próprias palavras arrependimento, regeneração e novo homem sugerem algo bem diferente. Algumas tendências em cada homem natural talvez precisem ser simplesmente rejeitadas.

[C. S. Lewis]
- de The Weight Of Glory [Peso de Glória]

26 de abril de 2013

PARTE DO CORPO MÍSTICO

|26 DE ABRIL|

A IGREJA sobreviverá ao universo; nela a pessoa individual sobreviverá ao universo. Tudo o que estiver ligado à cabeça imortal compartilhará a sua imortalidade. Ouvimos pouco sobre isso nos púlpitos cristão atuais. [...] Se nós não acreditarmos nisso, vamos ser honestos e relegar a fé cristã aos museus. Se acreditarmos, vamos desistir da pretensão de que isso não faz diferença, pois essa é a verdadeira reposta a todo o questionamento feito pela coletividade. O universo é mortal; nós viveremos para sempre. Virá um tempo em que toda cultura, instituição, nação, raça humana e vida biológica serão extintas, mas cada um de nós continuará vivo. A imortalidade foi prometida para nós e não para tais generalidade. Não foi para sociedades ou estados que Cristo morreu, mas para o homem. Nesse sentido, para os coletivistas seculares, o cristianismo parece envolver um clamor frenético pela individualidade. Porém, não é o indivíduo em si que compartilhará a vitória de Cristo sobre a morte. Vamos compartilhar a vitória estando no vitorioso. Uma rejeição, ou, utilizando a forte linguagem das Escrituras, uma crucificação do eu natural, é o passaporte para a vida eterna. Nada que não tenha morrido será ressuscitado. [...] Aqui está a ambiguidade enlouquecedora da fé, como ela deve parecer para os de fora. De forma impecável, ela bate de frente com nosso individualismo natural. Por outro lado, devolve para aqueles que abandonam o individualismo a posse eterna do seu ser pessoal, até mesmo dos seus corpos. Como mera entidades biológicas, cada uma com a sua vontade de viver separado e se expandir, aparentemente não valemos nada; não passamos de pó. Porém, como membros do corpo de Cristo, como pedras e pilares do templo, temos a certeza da nossa própria identidade eterna e devemos viver para nos lembrar das galáxias como uma lenda antiga.

[C. S. Lewis]
- de The Weight of Glory [Peso de Glória]

25 de abril de 2013

BEM-VINDO À FAMÍLIA

|25 DE ABRIL|

A PALAVRA membresia é de origem cristã. No entanto, como o mundo apropriou-se dela, tornou-se esvaziada de sentido. Em qualquer livro de lógica você pode encontrar a expressão "membros de uma classe". É preciso declarar enfaticamente que os itens ou particularidades inclusos em uma classe homogênea são praticamente o reverso do que Paulo quis dizer com a palavra membros. Para Paulo, membro significa [...] o que nós chamaríamos de órgãos - coisas diferentes uma das outras e complementares; coisas que diferem não apenas em sua estrutura e função, mas também em dignidade. A diferença entre a verdadeira membresia dentro de um corpo e a mera inclusão dentro de uma coletividade pode ser vista na estrutura de uma família. Os avós, os pais, o filho adulto, a criança, o cachorro e o gato são todos membros verdadeiros (no sentido orgânico), exatamente porque eles não são membros ou unidades de uma classe homogênea. Eles não são intercambiáveis. Cada pessoa é praticamente uma espécie em si mesma. A mãe não é simplesmente uma pessoa diferente da filha; é um tipo diferente de pessoa. O irmão mais velho não é simplesmente uma unidade na classe das crianças, ele é um conjunto separado daquele grupo. O pai e o avô são praticamente tão diferentes quando o gato e o cachorro. Se você subtrair qualquer um desses membros, não terá simplesmente reduzido a família em termos numéricos, mas também causado uma lesão à estrutura. A unidade familiar é uma unidade de desiguais, quase que de incomensuráveis.
A turva percepção da riqueza inerente a esse tipo de unidade é uma razão por que apreciamos um livro como O Vento nos Salgueiros; um trio como Rato, Toupeira e Texugo simboliza a extrema diferenciação de pessoas em união harmônica, que conhecemos intuitivamente como nosso verdadeiro refúgio tanto da solidão quanto da coletividade.

[C. S. Lewis]
- de The Weight Of Glory [Peso de Glória]

24 de abril de 2013

EU DECIDI


UM MUNDO FAMINTO

|24 DE ABRIL|

NENHUM cristão, e de fato, nenhum historiador poderia aceitar o epigrama que define a religião como "o que um homem faz com a sua solidão". Foi um dos Wesleys, acho eu, que disse que o Novo Testamento não faz menção a qualquer religião solitária. Somos proibidos de negligenciar a nossa própria estrutura conjunta. O cristianismo já era constitucional em seus documentos mais antigos. A igreja é a noiva de Cristo e nós somos membros uns dos outros.
Em nossa era, a ideia de que a religião pertence a nossa vida particular - ou seja, que é, na verdade, uma ocupação para a hora de lazer - é ao mesmo tempo paradoxal, perigosa e natural. Ela é paradoxal, porque essa exaltação do indivíduo no campo religioso surge em um tempo em que o coletivismo está derrotando o individualismo em todos os demais campos. [...] Há muitos camaradas intrometidos, autointitulados mestres-de-cerimônias, cujas vidas são devotadas a destruir a solidão onde quer que ela exista. Eles  chamam isso de "tirar os jovens para fora de si mesmos", ou "despertá-los", ou "fazê-los superar a sua apatia". Se um Agostinho, um Vaughan, um Traherne, ou um Wordsworth tivessem nascido em nosso mundo moderno, os líderes de um grupo de jovens logo os curariam. Se lares realmente bons, como o lar de Alcino e Arete na Odisseia, ou os Rostovs de Guerra e Paz, ou qualquer uma das famílias de Charlotte M. Yonge, existissem hoje, eles seriam denunciados como burgueses, e algum plano de destruição seria elaborado contra eles. E mesmo que os planejadores falhassem e alguém fosse deixado só, um exame mostraria que ele seria - num sentido não pretendido por Scipio - não menos solitário do que quando sozinho. Nós vivemos de fato em um mundo faminto de solidão, silêncio e privacidade e, por isso, faminto de meditação e amizade verdadeira.

[C. S. Lewis]
- de The Weight of Glory [Peso de Glória]

23 de abril de 2013

A ESPOSA MAIS COMPLETA

|23 DE ABRIL|

Lewis lamenta a morte de sua esposa, Joy

Joy e Lewis
UMA boa esposa tem dentro de si uma diversidade de pessoas. Incrível o quanto H. significava para mim. Ela era minha filha e minha mãe, minha aluna e minha professora, minha subordinada e minha chefe. Era minha camarada confidente, amiga, companheira; tudo isso misturado. Minha amante, mas ao mesmo tempo, tudo o que qualquer amigo (e tenho excelentes amigos) jamais foi para mim. Quem sabe até mais. Se não tivéssemos nos apaixonado ainda assim ficaríamos sempre juntos - o que seria um escândalo. Foi isso que eu quis dizer quando eu a elogiei certa vez por suas "virtudes  masculinas". Mas ela foi logo dando um basta nisso, perguntando-me como eu me sentiria se elogiasse as minhas virtudes femininas. Esse foi um belo contragolpe, querida. Havia algo de amazona - um quê de Pentesileia e Camila. E você, tanto quanto eu, ficou contente em saber que havia. Você ficou contente por eu ter reconhecido isso.
Salomão chegou a chamar a sua noiva de irmã. Poderia uma mulher ser uma esposa completa, se que, num momento específico de bom humor, um homem sinta-se inclinado a chamá-la de "irmão"?

[C. S. Lewis]
- de A Grief Observed [A Anatomia de Uma Dor]

22 de abril de 2013