12 de junho de 2013

POR QUE O CÉU É SEMPRE "LÁ EM CIMA"

|12 DE JUNHO|

NÃO é por acaso que as pessoas simples, por mais espirituais que sejam, acabam associando as ideias de Deus e do céu ao firmamento azul. Trata-se de um fato, e não de uma ficção, que a luz e o calor que dão vida descem do céu para a terra. A analogia do céu com o gerador e da terra com produtora é sólida até certo ponto. Acima de tudo, a enorme cúpula do céu é mais sensorialmente percebida como o infinito. E quando Deus fez o espaço e os mundos que se movem nele, e revestiu o nosso mundo com gases atmosféricos, e nos deu os olhos e a imaginação que temos, ele sabia muito bem o que o céu significaria para nós. E já que nada em sua obra é acidental, se ele o sabia, foi intencional. Não podemos afirmar que isso foi um dos principais propósitos para os quais a natureza foi criada; muito menos que foi uma das principais razões pelas quais foi permitido que o arrebatamento afetasse os sentidos humanos como sendo um movimento ascendente (um desaparecimento para dentro de terra produziria uma religião completamente diferente). Os antigos não estavam totalmente errados em deixar o simbolismo do céu fluir diretamente para dentro das suas mentes sem parar para descobri, por análise, que não se passava de um símbolo. De certa forma, talvez estivessem menos errados do que nós.

[C. S. Lewis]
- de Miracles [Milagres]

11 de junho de 2013

TESTEMUNHAS OCULARES CONFIÁVEIS?

|11 DE JUNHO|

O FATO de os pastores galileus não conseguirem distinguir o que eles viram na ascensão, o tipo de ascendência que, por sua própria natureza, jamais poderia ter sido visto, não prova que eles não eram "espirituais", ou que não viram nada. Alguém que realmente acredita que o céu está no firmamento, pode muito bem ter em seu íntimo um conceito mais verdadeiro e espiritual do que qualquer lógico moderno capaz de expor tal falácia em poucas linhas. Pois todo aquele que faz a vontade do Pai conhecerá a doutrina. Os esplendores materiais irrelevantes presentes na ideia que tal pessoa faz da visão de Deus não causarão danos, pois não estão ali por si mesmos. A pureza de tais imagens em uma ideia cristã simplesmente teórica não fará bem algum se elas forem banidas apenas pelo criticismo lógico.

[C. S. Lewis]
- de Miracles [Milagres]

10 de junho de 2013

VOCÊ ME SEGUIRIA?


Vídeo muito bem elaborado e editado.

CAMISETA CELEBRAÇÕES 2013


Só para quem vai para as Celebrações de Inverno - SP | 2013.
Arena1!

O REGISTRO DAS TESTEMUNHAS

|10 DE JUNHO|

CÉU PODE significar: a) a vida divina incondicional além de todos os mundos; b) a participação gloriosa naquela vida por meio de um espírito criado; c) toda a natureza ou sistema de condições nos quais os espíritos humanos redimidos, que ainda continuam humanos, podem desfrutar dessa participação de maneira completa e eterna (esse é o céu no qual Cristo vai "preparar" lugar); d) o céu físico, o firmamento, o espaço em que a Terra se move. O que nos habilita a distinguir esses significados e mantê-los claramente distintos não é nenhuma pureza espiritual, mas o fato de que somos herdeiros de séculos de análise lógica - não porque somos filhos de Abraão, e sim porque somos filhos de Aristóteles. Não devemos supor que os escritores do Novo Testamento tenham confundido os significados de céu. Não se pode distinguir cara e coroa quando não se conhece a moeda - ou seja, até se conhecer a diferença entre seus lados. Na concepção que os escritores tinham de véu todos esses significados estavam latentes, prontos para serem apresentado em uma análise posterior. Eles nunca se referem meramente ao céu azul ou a algum céu "espiritual". Quando eles olharam para cima, para o céu azul, eles nunca duvidaram que o lar de Deus fosse ali mesmo, uma vez que a luz, o calor e a chuva preciosa saíam dali. Porém, quando eles pensaram em alguém ascendendo a esse céu, nunca duvidaram que ele estava ascendendo para um lugar como o entendemos no seu sentido espiritual.

[C. S. Lewis]
- de Miracles [Milagres]

9 de junho de 2013

O QUE ELES VIRAM E O QUE PENSAM QUE VIRAM?

|9 DE JUNHO|

ACHAR que a passagem de Cristo para uma nova "natureza" pudesse não envolver algum fenômeno (de ascensão), ou qualquer outro movimento fora do âmbito da "natureza" em que ele estava vivendo, é bastante arbitrário. Onde há passagem, há partida; e a partida é um fenômeno que acontece no local de onde o viajante está partindo. Tudo isso, mesmo sob a condição de que o Cristo em ascensão se encontra em um espaço tridimensional. Se não se tratar dessa espécie de corpo, e o espaço não for esse tipo de espaço, estamos ainda menos qualificados para dizer o que os observadores desse evento inteiramente novo poderiam ter ou não visto ou sentir como se tivessem visto. É claro que não há dúvida de que o corpo humano que conhecemos existe no espaço interestelar conhecido. A ascensão pertence à nova natureza. O que estamos discutindo aqui é como teria acontecido o encontro entre a velha e a nova natureza; como teria sido o momento preciso da transição.
No entanto, o que realmente nos preocupa é a convicção de que, não importa o que possamos dizer, na verdade os escritores do Novo Testamento estavam se referindo a algo totalmente diferente. Temos certeza de que eles achavam que haviam visto o seu mestre partindo para uma viagem rumo a algum "céu" local onde Deus estava assentado sobre um trono e onde havia algum outro trono esperando por ele.  Acredito que, de certa forma, foi justamente o que pensaram. E acredito que, por essa mesma razão, o que quer que eles tenha visto realmente (a percepção sensorial, provavelmente, teria ficado confusa num momento desses) os faria lembrar do mesmo como um movimento vertical. O que não podemos dizer é que eles "confundiram" os "céus" locais, as salas do trono celestiais, e o anseio pelo "céu" "espiritual"  de união com Deus e de supremo poder e bem aventurança.

[C. S. Lewis]
- de Miracles [Milagres]

8 de junho de 2013

NÃO EXISTE GENTE COMUM

|8 DE JUNHO|

NÃO EXISTE gente comum. Você jamais conversou com um simples mortal. As nações, as culturas, as artes e as civilizações são todas mortais; a vida delas é para a nossa como a vida de um mosquito. São imortais aqueles com quem brincamos, trabalhamos, casamos, a quem exploramos e desprezamos - horrores imortais ou esplendores eternos. Isso não significa que devamos ser sempre solenes: devemos brincar. Porém, nossa descontração deve ser do tipo (e esse é, de fato, o mais cordial) que existe entre pessoas que, desde o começo, levaram umas às outras a sério - sem ofensa, sem ar de superioridade ou presunção. E a nossa caridade deve basear-se num amor real e custoso - sem essa de tolerância ou paternalismo que transforma o amor numa paródia petulante. Depois do Sagrado Sacramento o objeto mais sagrado que pode se apresentar aos seus sentidos é o próximo. Se ele for cristão, é santo quase do mesmo modo, pois nele também Cristo vere latitat; a própria glória - o glorificador e glorificado - está verdadeiramente escondido.

[C. S. Lewis]
- de The Weight of Glory [Peso de Glória]

7 de junho de 2013

UMA NATUREZA COMPLETAMENTE ESTRANHA

|7 DE JUNHO|

OS REGISTROS mostram Cristo passando da morte (como nenhum homem jamais passou) não para um estado pura e negativamente espiritual de existência, nem para uma vida natural, tal como conhecemos, mas para uma vida que é, em si mesma, uma nova natureza. Esses registros relatam que ele subiu aos céus seus semanas mais tarde, passando para um modo diferente de existência. Ele disse que estava indo "preparar-nos um lugar". Isso presumivelmente quer dizer que ele estava prestes a criar uma natureza completamente nova, que providenciaria o ambiente e as condições necessárias para sua humanidade glorificada e também, por meio dele, para a nossa. Essa não é bem a imagem que esperávamos encontrar - se ela é mais ou menos provável e filosófica dessa forma é outra questão. Não é a imagem de uma fuga de todo e qualquer tipo de natureza para uma vida incondicionada e transcendente. Trata-se da imagem de uma nova natureza humana e de uma nova natureza em geral, trazida à existência. Devemos acreditar que o corpo depois da ressurreição será, de fato, totalmente diferente do corpo mortal. Porém, nesse novo estado, a existência de qualquer coisa que pudesse ser descrita como algo parecido como um "corpo", envolve algum tipo de relação especial e, a longo prazo, um universo inteiramente novo. Esse é o cenário - não de destruição, mas de reconstrução. Os velhos campos do espaço, do tempo, da matéria e dos sentidos precisam ser capinados, cavados e semeados para uma espécie de nova colheita. Talvez estejamos cansados desses velhos campos; Deus não está.

[C. S. Lewis]
- de Miracles [Milagres]

6 de junho de 2013

UMA HISTÓRIA MUITO ESTRANHA

|6 DE JUNHO|

NESSE ponto o pavor e o tremor recaem sobre nós à medida que lemos os registros. Se a história for falsa, trata-se pelo menos de uma história bem mais estranha do que estranha do que esperávamos - algo para o qual a religião "filosófica", a pesquisa psicológica e a superstição popular falharam em nos preparar. Se a história for verdadeira, então um novo estilo de vida surgiu no universo.
O corpo que vive nesse novo estilo é parecido, e ainda assim diferente, do corpo que os seus amigos conheciam antes da execução. Ele se relaciona de modo distinto com o espaço e provavelmente com o tempo, mas de maneira alguma está desconectado deles. Ele pode realizar o ato animal de comer. Relaciona-se de forma tal com a matéria, como a conhecemos, que pode ser tocado, embora no início fosse melhor não tocá-lo. Existe também uma história à sua frente que se manifesta desde o primeiro momento da ressurreição: irá tornar-se diferente ou partir par algum lugar. Eis porque a história da ascensão não pode ser separada daquela da ressurreição. Todos os registros sugerem que os aparecimentos do corpo ressurreto chegaram a um fim; alguns descrevem um fim abrupto aproximadamente seis semanas depois da morte. Eles descrevem esse fim abrupto de uma forma que traz mais dificuldades para a mente moderna do que qualquer outra parte das Escrituras. Aqui, certamente, encaramos a implicação de todas aquelas basicalidades primitivas com as quais os cristãos não estão comprometidos: a ascensão vertical como de uma balão, o céu local, a cadeira decorada à direita do trono do Pai. "Ele foi recebido nos céus", diz o evangelho de Marcos, "e assentou-se à destra de Deus". "Foi elevado às alturas", diz o autor de Atos, "e uma nuvem o encobriu dos seus olhos".

[C. S. Lewis]
- de Miracles [Milagres]

5 de junho de 2013

PARECE UM FANTASMA, MAS NÃO É

|5 DE JUNHO|

ADMITO QUE, em certos aspectos, o Cristo ressurreto se assemelha ao "fantasma" da tradição popular. Ele "aparece" e "desaparece"; portas trancadas não representam uma obstáculo para ele. No entanto, Cristo mesmo garante, com todo vigor, que era matéria (Lc 24.39-40) e até come peixe frito. É nesse ponto que o leitor moderno se sente desconfortável. E ainda mais quando se depara com as palavras: "Não me detenhas; porque ainda não subi para o meu Pai" (Jo 20.17). Estamos preparados, até certo ponto, para vozes e aparições. Porém, o que poderia significar o fato de não podermos tocá-lo? Que negócio é esse de "subir ao Pai"? Ele já não estava "com o Pai"? O que subir poderia significar, a não ser uma metáfora para isso? E, se for assim, por que ele ainda não foi? Tais embaraços surgem nesse ponto da história que os "apóstolos" tinham para contar começam a conflitar com a história que esperamos e estamos precisamente determinado a ler em sua narrativa.
Esperamos que eles falem de uma vida  ressurreta como uma vida puramente "espiritual", no sentido negativo da palavra. Isso é, usamos a palavra "espiritual" não para significar o que é, mas o que não é. Nós imaginamos uma vida sem espaço, sem história, sem ambiente, sem elementos sensoriais nela. No mais profundo do nosso coração, também tendemos a achar defeito na humanidade de Jesus ressurreto; tendemos a concebê-lo depois da morte simplesmente como uma divindade que está voltando, como se a ressurreição não passasse de uma reversão da encarnação. Sendo assim, todas as referências ao corpo ressurreto nos constrangem; levantam questões complexas.

[C. S. Lewis]
- de Miracles [Milagres]

4 de junho de 2013

O COMEÇO DA NOVA CRIAÇÃO

|4 DE JUNHO|

RESSURREIÇÃO não foi considerada simples ou principalmente como uma evidência da imortalidade da alma. É claro que hoje ela é bastante considerada desse modo: ouvi alguém defender que a "importância da ressurreição é o fato de provar a sobrevivência". Tal ponto de vista não pode ser conciliado, em nenhum lugar, com a linguagem do Novo Testamento. A partir dessa visão, Cristo simplesmente teria feito o que todos os seres humanos fazem quando morrem; a única novidade seria que, em seu caso, tivemos o privilégio de apreciar o acontecimento. Nas Escrituras, porém, não existe a menor sugestão de que a ressurreição tenha sido uma nova evidência para algo que de fato já estivesse ocorrendo. Os autores do Novo Testamento falam como se a façanha de Cristo em levantar-se dos mortos tivesse sido o primeiro evento deste tipo em toda a história do universo. Ele é o "pioneiro da vida", a "primícia". Cristo arrombou uma porta que esteve fechada desde a morte do primeiro ser humano. Ele encarou o rei da morte, lutou com ele e o derrotou. Tudo é diferente pelo fato de ele ter feito isso. Este é o início da nova criação - um novo capítulo na história cósmica foi aberto.

[C. S. Lewis]
- de Miracles [Milagres]

3 de junho de 2013

O QUE OS APÓSTOLOS QUERIAM DIZER

|3 DE JUNHO|

QUANDO os escritores modernos falam da ressurreição, geralmente se referem a um evento distinto: a descoberta de uma cova vazia e o aparecimento de Jesus a poucos metros dela. A história daquele momento é o que os apologetas cristãos tentam defender e o que os céticos tentam de todas as formas impugnar. Porém, essa concentração quase exclusiva aos primeiros cinco minutos da ressurreição teria impressionado os primeiros educadores cristãos. Ao alegar terem visto a ressurreição, eles Não estavam necessariamente reivindicando terem visto o que aconteceu. Alguns deles tinham visto, outros não. Isso não tinha mais importância do que qualquer uma das outras aparições de Jesus ressurreto - sem contar a importância poética e dramática que o começo das coisas sempre tem. O que eles afirmavam é que todos, em um momento ou outro, encontraram Jesus ao longo das seus ou sete semanas que seguiram a sua morte. Parece que alguns deles estavam sozinhos quando isso aconteceu, mas houve uma ocasião em que doze deles o viram; em outra, cerca de quinhentos deles. Paulo diz que a maioria dos quinhentos continuava viva quando ele escreveu a primeira carta aos Coríntios, isto é, por volta do ano 55 depois de Cristo.
A "ressurreição" da qual foram testemunhas não era, de fato, a ação de se levantar dos mortos, mas a condição de ter-se levantado. Uma condição, como confirmavam, atestada pelos encontros intermitentes ao longo de um período de tempo limitado (exceto pelo encontro especial e, de certa forma diferente, conferido a Paulo). O encerramento desse período é importante, pois [...] não há possibilidade de isolar a doutrina da ressurreição daquela da ascensão.

[C. S. Lewis]
- de Miracles [Milagres]

2 de junho de 2013

O TESTEMUNHO APOSTÓLICO

|2 DE JUNHO|

NOS primeiros dias do cristianismo, um "apóstolo" era, antes e acima de tudo, alguém que afirmava ser uma testemunha ocular da ressurreição. Poucos dias depois da crucificação, quando dois candidatos foram indicados para a vaga cedida pela traição de Judas, a qualificação exigida era ter conhecido a Jesus pessoalmente antes e depois de sua morte, e ser capaz de oferecer evidências "de primeira mão" sobre a ressurreição ao comunicar o evangelho aos outros (At 1.22). Alguns dias depois, Pedro, pregando o seu primeiro sermão cristão, afirma o mesmo: "A este Jesus Deus ressuscitou, do que todos nós somos testemunhas" (At 2.32). Na primeira carta aos Coríntios, Paulo baseia a sua reivindicação ao apostolado no mesmo argumento: "Porventura, não sou apóstolo? Não vi Jesus, nosso Senhor?" (9.1).
Como essa autoexplicação sugere, pregar o cristianismo significava primeiramente pregar a ressurreição. [...] Este é o tema central em todos os sermões cristãos relatados no livros de Atos. A ressurreição e as suas consequências eram o "evangelho", ou boas novas, que os cristãos comunicavam. O que chamamos de "evangelhos", as narrativas da vida e morte do nosso Senhor, foram escritos mais tarde para o benefício daqueles que já tinham aceitado o evangelho. Eles não eram a base do cristianismo; foram escritos para os que já estavam convertidos. O milagre da ressurreição e a sua teologia vem primeiro; a biografia vem depois, como um comentário sobre a própria ressurreição. [...] O primeiro fato na história do cristianismo é um grupo de pessoas que insiste em dizer que viu ressurreição. Se elas tivessem morrido sem fazer com que outros acreditassem nesse "evangelho", nenhum dos evangelhos jamais teria sido escrito.

[C. S. Lewis]
- de Miracles [Milagres]

1 de junho de 2013

INCONTÁVEIS MILHÕES

|1 DE JUNHO|

EIS AQUI outra coisa que me deixa intrigado. Não é tremendamente injusto que essa nova vida seja restrita aos que ouviram falar de Cristo e assim puderam acreditar nele? A verdade, porém, é que Deus não nos disse quais são os planos para as outras pessoas. Sabemos muito bem que ninguém pode ser salvo a não ser por meio de Cristo; não sabemos se somente aqueles que o conhecem podem ser salvos por meio dele. No entanto, se você estiver preocupado com as pessoas de fora, a coisa mais irracional que você pode fazer é também permanecer do lado de fora. Os cristãos representam o corpo de Cristo, o organismo por meio do qual ele trabalha. Cada acréscimo a esse corpo permite que Cristo faça mais. Se você quiser ajudar aqueles que estão de fora, terá de acrescentar sua pequena célula ao corpo de Cristo, que é o único capaz de ajudá-los. Cortar fora o dedo de uma pessoa seria uma dificuldade estranha para fazê-lo trabalhar mais.

[C. S. Lewis]
- de Mere Christianity [Cristianismo Puro e Simples]

31 de maio de 2013

EVITE A LUZ

| 31 DE MAIO|

Depois de descobrir que o paciente de Wormwood tornou-se cristão, Screwtape ilustra técnicas para confusão
Vale sempre lembrar que Screwtape e Wormwood são demônios e estes textos são cartas trocadas entre eles

UM DOS nossos grandes aliados atualmente é a própria igreja. Por favor, não me interprete mal. Não estou falando da igreja como a vemos, espalhada por todos os tempos e espaços, com suas raízes na eternidade e terrível como um exército que marcha sob uma bandeira. Esse, confesso, é um espetáculo que dificulta nossas mais corajosas iniciativas. Felizmente, isso é pouco notado pelos seres humanos. Tudo o que o seu paciente vê é o monumento inacabado com pretensas linhas góticas na nova entrada do prédio. Quando ele entra, vê o dono da mercearia local com uma expressão de beatice no rosto apressando-se em oferecer-lhe um livrinho reluzente com uma liturgia que nenhum deles é capaz de entender e um pequeno livro caindo aos pedaços contendo textos corrompidos de vários hinos religiosos, a maioria de péssima qualidade, e impresso em letras bem miúdas. Quando o seu paciente senta-se no banco da igreja e olha à sua volta, ele só vê aqueles vizinhos. [...] Se algum deles cantar fora do tom, ou tiver botas que rangem, ou um papo grande, ou roupas estranhas, será fácil fazer o paciente acreditar que a religião deles é ridícula. No estágio atual, veja bem, ele tem em mente uma ideia de "cristãos" que ele supõe ser espiritual, mas que, na verdade, é imaginária. A mente dele está cheia de togas, sandálias, armaduras, pernas de fora, e o mero fato de que há pessoas na igreja que usam roupas modernas é uma dificuldade real para ele - ainda que seja inconsciente, é claro. Jamais deixe isso vir à tona; não o deixe se perguntar que aparência ele esperava que os cristãos tivessem. Mantenha tudo confuso na mente dele agora, e você terá toda a eternidade para se divertir produzindo nele o tipo peculiar de luz que só o inferno pode oferecer.

[C. S. Lewis]
- de The Screwtape Letters [Cartas do Diabo a seu Aprendiz]

30 de maio de 2013

arenaACÚSTICOdois

arenaacústicodois
com algumas novidades! Não fique de fora, convide mais um para estar junto com você neste dia! Espalhe!

TRABALHO OFERECIDO A DEUS

|30 DE MAIO|

SOU totalmente contra a ideia alojada na mente de algumas pessoas modernas de que as atividades culturais são espirituais e louváveis por si mesmas - como se os estudiosos e os poetas fossem intrinsecamente mais agradáveis a Deus do que os garis e os engraxates. Acho que foi Matthew Arnold o primeiro a usa a palavra inglesa spiritual [espiritual] no sentido dado pelos alemães à palavra geistlich [religioso], inaugurando assim o erro mais perigoso e anticristão de todos. Vamos limpá-lo para sempre das nossas mentes. A obra de um Beethoven e o trabalho de uma empregada doméstica tornam-se espirituais na medida em que são oferecidas a Deus, em que são feitos humildemente "como que para o Senhor". Isso não quer dizer que será um mero lançar de dados que definirá se alguém deve varrer os quartos ou compor sinfonias. Um castor precisa cavar para a glória de Deus e um galo precisa cantar. Nós somos membros de um corpo, mas membros diferenciados, cada um com a sua própria vocação.

[C. S. Lewis]
- de The Weight of Glory [Peso de Glória]

29 de maio de 2013

UM CONSOLO CURIOSO

|29 DE MAIO|

É EM SEU centro, onde seus filhos mais verdadeiros habitam, que cada igreja está realmente próxima uma da outra em espírito, se não estiver em doutrina. E isso sugere que no centro de cada uma existe um algo, ou um Alguém, que, contra todas as divergências de crença, todas as diferenças de temperamento, todas as recordações de perseguição mútua, fala com a mesma voz.

[C. S. Lewis]
- de Mere Christianity [Cristianismo Puro e Simples]

28 de maio de 2013

VISLUMBRES DO NOSSO FUTURO

|28 DE MAIO|

"NÃO sabemos no que nos tornaremos"; mas podemos ter certeza de que seremos mais, e não menos, do que fomos na terra. Nossas experiências naturais (sensoriais, emocionais e imaginativas) são como um esboço, como traços pincelados num papel liso. Se eles desaparecem na nova vida, sumirão da mesma forma que uma pincelada desaparece diante de uma paisagem de verdade. Não como a chama de uma vela que é apagada, mas como a chama de uma vela que se torna invisível porque alguém levantou as cortinas, abriu as venezianas e deixou entrar o clarão da luz do sol.

[C. S. Lewis]
- de The Weight Of Glory [Peso de Glória]

27 de maio de 2013

UMA IGREJA CONVENIENTE

|27 DE MAIO|

Screwtape discorre sobre a participação na igreja para fins escusos
Vale lembrar que Screwtape é um demônio

CERTAMENTE você sabe que, se o seu paciente for um inveterado frequentador de igrejas, a melhor coisa a fazer é instigá-lo a percorrer toda a vizinhança em busca de uma igreja que lhe seja mais "conveniente" até que ele se torne um verdadeiro degustador e profundo conhecedor de igrejas.
As razões são óbvias. Em primeiro lugar, é preciso atacar a igreja local, pois, enquanto a unidade for em função do espaço e não de preferências pessoais, ela reúne pessoas de diferentes classes e traços psicológicos criando o tipo de unidade que o Inimigo [Deus] deseja. O princípio congregacional, por outro lado, transforma cada igreja em um tipo de clube, e finalmente, se tudo andar bem, em uma associação ou facção. Em segundo lugar, a busca por uma igreja "conveniente" torna o homem crítico quando se sabe que o Inimigo [Deus] quer que ele seja um discípulo. O que ele espera do leigo na igreja é uma atitude que pode até ser crítica no sentido de rejeitar tudo o que é falso ou inútil, mas também totalmente acrítica no sentido de avaliar - não se perde tempo pensando sobre o que se rejeita, mas abre-se para uma receptividade submissa e humilde a todo alimento oferecido. (Veja como o Inimigo [Deus] é desprezível, pouco espiritual; irremediavelmente vulgar!). Essa atitude, especialmente durante os sermões, cria uma condição (na maioria das vezes, hostil para com nossa maneira de agir) em que mesmo as banalidades podem vir a ser ouvidas pela alma humana. Dificilmente haverá algum sermão, ou algum livro, que não seja perigoso para nós se for recebido dessa forma.

[C. S. Lewis]
- de The Screwtape Letter [Cartas do Diabo a seu Aprendiz]

26 de maio de 2013

CRIANDO ÓDIO NA IGREJA

|26 DE MAIO|

Screwtape dá dicas de como usar a igreja para fins maldosos
Sempre vale lembrar que Screwtape é um demônio.

ACREDITO que o adverti antes que, se não for possível manter o seu paciente fora da igreja, ele deve ao menos esta violentamente envolvido com alguma facção dentro dela. Não estou me referindo a assuntos realmente importantes do ponto de vista doutrinário; sobre esses, quanto mais indiferente conseguirmos mantê-lo, melhor. Não é das doutrinas que dependemos mais para promover divergências. A graça está em criar ódio entre os que dizem "missa" e os que dizem "Santa Ceia" quando nenhum dos grupos faz a menor ideia da diferença entre a doutrina de Hooker e a de Tomás de Aquino e não conseguiram manter a discussão por cinco minutos. E todas as coisas insignificantes - velas, roupas e tudo mais - são uma base excelente para as nossas atividades. Temos quase removido da mente humana o que aquele pestilento camarada Paulo costumava ensinar sobre comida e outras coisas desnecessárias - em outras palavras, que o homem sem peso na consciência deve sempre ceder diante de outro com peso na consciência. E você pensaria que eles não falhariam em ver a aplicação. Você encontraria o sacerdote "fraco" se curvando e fazendo o sinal da cruz a fim de que a consciência de seu irmão "forte" não o levasse à irreverência, e o irmão mais "forte" evitaria esses exercícios a fim de não levar seu irmão "fraco" à idolatria. Se fosse assim, teríamos um trabalho incessante. Sem nossa intenção, a variedade de práticas dentro da igreja da Inglaterra poderia ter virado um canteiro de caridade e humildade.

[C. S. Lewis]
- de The Screwtape Letters [Cartas do Diabo a seu Aprendiz]

25 de maio de 2013

CALOROSAS BOAS-VINDAS

|25 DE MAIO|

ESPERO que nenhum leitor suponha que o cristianismo "simples" seja uma espécie alternativa para os credos das comunidades existentes. Trata-se mais de um hall de entrada, cujas portas se abrem para vários cômodos. Se eu conseguir conduzir qualquer pessoa para o hall, já terei feito a minha parte. Porém, é nos cômodos, e não no hall, que estão os aquecedores, as cadeiras e as refeições. O hall é uma sala de espera, um lugar no qual se tenta abrir várias portas, e não um lugar para se morar. Por isso mesmo, penso que o pior de todos os cômodos (qualquer que seja) é o melhor de todos. É verdade que algumas pessoas descobrirão que terão de esperar muito tempo no hall, enquanto outras realmente percebem em que porta devem bater. Não faço ideia da razão dessa diferença, mas tenho certeza de que Deus não deixa ninguém esperando, a menos que ele entenda que isso será bom para essa pessoa. Quando você entrar no seu quarto, descobrirá que a espera demorada lhe fez um bem que você não experimentaria se não fosse assim. Porém, você não deve considerar essa espera como um acampamento. Você deve continuar orando por luz e, é claro, até mesmo no hall, deve começar a tentar obedecer regras comuns em toda a casa. E, acima de tudo, você terá de continuar perguntando qual a porta verdadeira, e não qual lhe agrada mais pela sua pintura e ornamentos. Em linguagem clara, a questão jamais deve ser: "Será que eu gosto desse tipo de culto?". E sim: "Será que essas doutrinas são verdadeiras? Há santidade aqui? Será que a minha consciência está e movendo nessa direção? Até que ponto a minha relutância em bater nessa porte se deve ao meu orgulho, ou ao meu gosto pessoal, ou à minha aversão a esse porteiro?".
Quando você chegar em seu quarto, seja bondoso com aqueles que ainda se encontram no hall. Se eles estiverem errados, precisarão ainda mais de suas orações; e, se forem seus inimigos, então você tem a obrigação de orar por eles. Essa é uma regra comum em toda a casa.

[C. S. Lewis]
- de Mere Christianity [Cristianismo Puro e Simples]

24 de maio de 2013

O ÚNICO PROPÓSITO

|24 DE MAIO|

ISSO É TUDO no cristianismo. Não há nada além. É tão fácil ficar confuso quanto a isso, e pensar que a igreja detém uma variedade de objetivos - educação, reformas, missões, assistência social. Da mesma forma, é fácil pensar que o Estado tem objetivos variados: militares, políticos, econômicos e tantos outros. Porém, as coisas são mais simples do que isso. O Estado existe simplesmente para promover e proteger a felicidade comum dos seres humanos durante a vida. Um marido e uma esposa conversando junto a uma fogueira, dois amigos jogando tênis no clube, uma pessoa lendo um livro em seu próprio quarto ou cuidando do seu jardim - é para isso que o Estado existe. E a menos que ele esteja ajudando a aumentar, prolongar e proteger momentos como esses, todas as leis, parlamentos, exércitos, cortes, polícia e sistemas econômicos, por exemplo, são apenas perda de tempo. Da mesma maneira, a igreja existe somente para levar os homens a Cristo (torná-los pequenos Cristos). Se ela não estiver cumprindo esse papel, todas as catedrais, missões, clérigos ou sermões não farão a menor diferença - nem mesmo a própria Bíblia. Deus não se fez homem para outro fim. Suspeita-se, inclusive, que todo o universo tenha sido criado com esse único propósito.

[C. S. Lewis]
- de Mere Christinity [Cristianismo Puro e Simples]

23 de maio de 2013

UMA PALAVRINHA


Este é um dos poucos registros de áudio de C. S. Lewis. É uma parte de Cristianismo Puro e Simples

O MAIS LONGO CAMINHO DE VOLTA

|23 DE MAIO|

VOU ME arriscar a adivinhar como esse trecho do livro deve ter afetado meus leitores em geral. Minha hipótese é de que existem leitores de esquerda que estão com raiva por eu não ter ido mais além naquela direção, e alguns da ala oposta, que ficaram com raiva por acharem que eu fui longe demais. Isso nos faz dar de cara com o verdadeiro obstáculo de todo esse esboço de uma sociedade cristã. A maioria de nós não se aprofunda na questão para descobrir o que o cristianismo realmente diz; nos aprofundamos esperando achar no cristianismo um apoio para nossos próprios pontos de vista. Assim, o que buscamos é um aliado que seja um Mestre ou um Juiz. Eu também sou assim. Há partes neste livro que eu preferia simplesmente deixar de lado, e é por isso que discussões como essa não levam a nada, a não ser que percorramos um caminho ainda maior. Uma sociedade cristã não existirá enquanto a maioria de nós não a desejar verdadeiramente: e nós não a desejaremos enquanto não nos tonarmos plenamente cristãos. Repetirei incessantemente: "Faça aos outros o que gostaria que fizessem com você". Porém, não tenho capacidade de cumprir essa declaração até que eu ame o meu próximo como a mim mesmo. E não posso aprender a amar assim enquanto não aprender a amar a Deus. E só posso aprender a amar a Deus, aprendendo a obedecê-lo. Como eu já o havia prevenido, acabamos conduzidos para algo mais interno - partindo de assuntos sociais, acabamos nos religiosos. Pois o caminho mais longo de volta é o mais curto para se chegar em casa.

[C. S. Lewis]
- de Mere Christianity [Cristianismo Puro e Simples]

22 de maio de 2013

UMA SOCIEDADE CRISTÃ

|22 DE MAIO|

O NOVO Testamento, sem entrar em detalhes, nos dá uma ideia clara de como seria uma sociedade totalmente cristã. Talvez nos dê até mais do que podemos perceber. Ele nos diz que nessa sociedade não devem existir passageiros ou parasitas; se alguém não trabalha, que também não coma. Cada um deve trabalhar com as suas próprias mãos, e o que é mais importante: o trabalho de cada um deve produzir algo bom. Não se devem produzir coisas tolas e supérfluas e depois propagandas ainda mais ridículas para nos persuadir a comprá-las. Também não deve haver nenhum favoritismo, nenhum partidarismo ou escândalo. Até aí, uma sociedade cristã seria o que chamamos de esquerdista. Por outro lado, ela sempre enfatizará a obediência - obediência (uma marca externa do respeito) de todos nós para com as autoridades legitimamente constituídas, dos filhos em relação aos pais, e (temo que isso será bem pouco popular) das esposas em relação aos seus maridos.
Em terceiro lugar, ela será uma sociedade alegre, cheia de canto e regozijo, e que considera a preocupação e a ansiedade totalmente erradas. A cortesia é uma das virtudes cristãs, e o Novo Testamento odeia o que chamamos de "intrometidos".
Se uma sociedade dessas existisse e algum de nós a visitasse, acredito que ficaríamos com uma curiosa impressão. Acharíamos a sua vida econômica socialista demais e, por esse prisma, muito "avançada". Porém, acharíamos sua vida familiar e o seu código de conduta muito fora de moda - quem sabe é até cerimoniosos e aristocráticos. Todos nós simpatizaríamos com algo, mas bem poucos gostariam de tudo. É isso que se deve esperar se o cristianismo for o plano total para a humanidade. Todos nós nos afastamos desse plano em diferentes direções, e cada um de nós quer fazer com que a sua modificação do plano original seja o plano em si. Você sempre acabará descobrindo isso novamente em relação a qualquer que seja realmente cristã. Cada um é atraído por algumas partes e quer considerá-las em detrimento de todo o resto.

[C. S. Lewis]
- de Mere Christianity [Cristianismo Puro e Simples]

21 de maio de 2013

A IGREJA DEVE TOMAR A FRENTE?

|21 DE MAIO|

AS PESSOAS dizem: "A Igreja deve nos liderar". Isso seria verdade se as pessoas entendessem a declaração de forma correta, mas seria falso se houvesse um mal-entendido. Por Igreja devemos entender todo o corpo de cristão verdadeiros. E quando as pessoas dizem que a Igreja deve nos oferecer uma liderança, precisam entender que alguns cristãos - aqueles que por acaso apresentem os talentos requeridos - devem ser economistas e políticos, e que todos os economistas e políticos devem ser cristãos, e assim todos os esforços na política e na economia devem ser direcionados para por em prática o "faça aos outros o que gostaria que fizessem com você". Se isso acontecesse e se realmente estivéssemos preparados para vivenciar essa realidade, rapidamente encontraríamos a solução cristã para os nossos problemas sociais. Mas é claro que, quando as pessoas pedem por uma liderança da Igreja, o que a maior parte delas está querendo é que os clérigos desenvolvam um programa político. Isso seria ridículo. Os clérigos são pessoas da Igreja que foram especialmente treinadas e separadas para se preocupar com o que nos diz respeito como criaturas eternas. E estamos pedindo para que eles realizem um trabalho bem diferente, para o qual não foram treinados. Nós, os leigos, é que somos responsáveis pelo trabalho. A aplicação de princípios cristãos para promover o sindicalismo ou a educação deve vir de sindicalistas cristãos e professores cristãos; assim como a literatura cristã provém de romancistas e dramaturgos cristãos - e não de uma bancada de bispos, reunidos para tentar escrever peças e romances em suas horas vagas.

[C. S. Lewis]
- de Mere Christianity [Cristianismo Puro e Simples]

20 de maio de 2013

UM CORPO

|20 DE MAIO|

A SOCIEDADE para a qual o cristão foi chamado no batismo não é uma coletividade, mas um corpo. Trata-se, na verdade, de um corpo do qual a família é uma imagem ao nível natural. Somos intimados desde o começo a se unir com o nosso criador enquanto criaturas; como mortais, devemos nos unir com o imortal; como pecadores redimidos, com o Redentor sem pecado. Sua presença, a interação entre ele e nós, deve ser sempre o irresistível fator dominante na vida que devemos levar no Corpo, e qualquer concepção de comunhão cristã que não signifique primeiramente comunhão com ele está fora de questão. Depois disso, parece quase trivial atribuir a diversidade de operações à unidade do Espírito. Porém, essa unidade certamente está ali. Existem padres separados do laicato, catecúmeros  separados dos que estão em plena comunhão. Há autoridade dos maridos sobre as pessoas; dos pais sobre as crianças. Há, de uma forma discreta demais para ser oficialmente reconhecida, uma troca contínua de ministrações complementares. Estamos todos constantemente ensinando e aprendendo, perdoando e sendo perdoados, representando Cristo perante o homem quando intercedem por nós. O sacrifício da privacidade egoísta, diariamente exigido de nós, é recompensado centenas de vezes por meio do verdadeiro crescimento da personalidade que a vida do corpo proporciona. Aqueles que são membros uns dos outros se tornam tão diferentes quanto a mão difere do ouvido. Eis por que os mundanos são tão monotonamente parecidos, comparados com a quase milagrosa variedade de santos. A obediência é o caminho para a liberdade; a humilde, o caminho para o prazer; a unidade, o caminho para a individualidade. 

[C. S. Lewis]
- de The Weight Of Glory [Peso de Glória]

19 de maio de 2013

PORTADORES DE CRISTO

|19 DE MAIO|

ALGUNS podem até achar que o meu relato é bem diferente da sua própria experiência. Você talvez dia: "Nunca senti que fui ajudado por um Cristo invisível, mas frequentemente recebo ajuda de outros seres humanos". Isso lembra aquela mulher da Primeira Guerra Mundial que disse que se tivesse um racionamento de pão, isso não afetaria sua casa porque eles sempre se alimentaram de torradas. Se não há pão, não haverá torradas. Sem a ajuda de Cristo, você também não teria a ajuda de outros seres humanos. Ele trabalha em nós de várias formas, e não apenas por meio do que pensamos ser a nossa "vida religiosa". Ele age por meio da natureza, dos nossos próprios corpos, de livros e às vezes até por meio de experiências que parecem anticristãs (no momento em que ocorrem). Quando um jovem que frequentava a igreja simplesmente pela força do hábito honestamente percebe que não acredita no cristianismo e para de ir - desde que ele o faça por uma questão de honestidade e não apenas para aborrecer seus pais -, o espírito de Cristo provavelmente está mais próximo dele do que nunca. Porém, acima de tudo, Deus trabalha em nós por meio da interação mútua.
Os seres humanos são espelhos ou "mensageiros" de Cristo para outros seres humanos. Muitas vezes mensageiros inconscientes. Esse "bom contágio" pode ser transmitido mesmo por quem não foi atingido por ele. Pessoas que não eram cristãs me ajudaram a alcançar o cristianismo. Porém, em geral, são as pessoas que conhecem a Deus que o levam aos outros. Eis por que a Igreja, o corpo total de cristãos que mostram Cristo um aos outros, é tão importante. Pode-se dizer que, quando dois cristãos seguem a Cristo juntos, não há apenas duas vezes mais cristianismo do que se estivessem separados, mas dezesseis vezes mais.

[C. S. Lewis]
- de Mere Christianity [Cristianismo Puro e Simples]

18 de maio de 2013

MATÉRIA ABENÇOADA

|18 DE MAIO|

É PRECISO deixar bem claro que, quando os cristãos dizem que a vida de Cristo está neles, eles não estão se referindo a algo simplesmente mental ou moral. Quando eles falam de estar "em Cristo" ou de Cristo "estar neles", essa não é simplesmente uma forma de dizer que eles estão pensando em Cristo ou que o estejam copiando. O que eles querem dizer é que Cristo está realmente atuando por meio deles e que todos os cristãos são o organismo físico pelo qual Cristo atua - somos os dedos, os músculos e as células do seu corpo. E quem sabe isso explique uma ou duas coisas. Talvez explique por que essa nova vida se espalha, não apenas por atos puramente mentais como os da fé, mas também por atos corporais, tais como o batismo e a Santa Ceia. Não se trata meramente de semear uma ideia; trata-se antes de algo semelhante a uma evolução - um fato biológico ou suprabiológico. Não vale a pena tentar ser mais espiritual do que Deus. Ele nunca quis que o homem fosse uma criatura puramente espiritual. Eis por que Deus usa coisas materiais como o pão e o vinho para por a nova vida dentro de nós. Podemos até achar isso tosco e pouco espiritual, mas Deus não acha. Foi ele que inventou a comida. Ele gosta da matéria, foi ele mesmo que a criou.

[C. S. Lewis]
- de Mere Christianity [Cristianismo Puro e Simples]