18 de julho de 2013
TRANSFORMADOS
|18 DE JULHO|
PARECE que está na hora de pegar emprestado outra parábola de George MacDonald. Imagine-se como uma casa. Deus entra em cena para fazer uma reforma nesta casa. No começo, talvez você até entenda o que ele está fazendo. Ele está consertando os ralos entupidos, as goteiras no teto e assim por diante; você já sabia que esse serviços tinham de ser feitos e, por isso, não fica nada surpreso. Mas, no momento em que ele começa a martelar por toda a casa, de forma incrivelmente dolorosa, as coisas já não parecem mais fazer sentido. O que Deus está pretendendo afinal? A explicação é que ele está construindo um prédio bem diferente do que você tinha imaginado - jogando fora uma ala inteira aqui, colocando um novo andar ali, levantando torres, instalando jardins. Você imaginava que seria transformado num casebre; mas, na verdade, ele está construindo um palácio. E ele pretende vir morar neste palácio.
O mandamento sede perfeitos não é um idealismo barato. Tampouco se trata de um mandamento para fazermos o impossível. Ele nos transformará em criaturas capazes de ouvir e obedecer aos seus mandamentos. Deus diz (na Bíblia) que somos "divinos" e ele fará suas palavras se cumprirem. Se nós o deixarmos fazer isso - pois poderemos impedi-lo se preferirmos -, ele transformará as débeis e asquerosas pessoas que somos em criaturas divinas, deslumbrantes, radiantes, imortais, com tanta energia, alegria, sabedoria e amor pulsando por todo o corpo, que não podemos sequer imaginar. [Seremos transformados] em espelhos claros e imaculados que refletem perfeitamente (embora, é claro, numa escala menor), o próprio poder ilimitado, o prazer e a bondade de Deus. O processo será longo e, em parte, bastante dolorido, mas é para isso que fomos criados. Para nada menos. O que Cristo disse é para valer!
[C. S. Lewis]
- de Mere Christianity [Cristianismo Puro e Simples]
17 de julho de 2013
DUAS FACES DA VERDADE
|17 DE JULHO|
TEMOS aqui outra maneira de apresentar a duas faces da verdade. Por um lado, não devemos jamais imaginar que seja possível confiar em nossos próprios esforços para nos comportarmos, mesmo que só pelas próximas vinte e quatro horas, de forma correta. Se não estivermos apoiados em Cristo, nenhum de nós poderá evitar cometer algum grande pecado. Por outro lado, nenhum ato de santidade ou heroísmo dos maiores santos está além daquilo que está decidido a produzir em cada um de nós no final. Esse trabalho jamais estará completo nesta vida; porém, Cristo quer nos levar o mais longe possível antes da morte.
Por isso é que não temos razão alguma para nos surpreender, quando passamos por tempos difíceis. Quando uma pessoa se volta para Cristo e parece estar se dando bem (no sentido de que certos hábitos ruins estão sendo corrigidos agora), geralmente supomos que, a partir de então, o natural seria que as coisas acontecessem de forma mais fácil. Quando surgem os problemas - doenças, dificuldades financeiras, novos tipos de tentações - ficamos desapontados. Pensamos que tais coisas podem até ter sido necessárias no passado para nos levar ao arrependimento; mas por que agora? Porque Deus quer forçar-nos a ir em frente, para cima, rumo ao nível mais alto, colocando-nos em situações em que temos de ser mais corajosos, ou mais pacientes, ou mais amorosos do que nunca sonhamos ser. Tudo isso parece bastante desnecessário para a maioria de nós, pois ainda não temos a mínima ideia do algo tremendo em que ele pretende nos tornar.
[C. S. Lewis]
- de Mere Christianity [Cristianismo Puro e Simples]
16 de julho de 2013
UMA ESPADA NAS MÃOS DE DEUS
|16 DE JULHO|
Lewis lamenta a morte de sua esposa, Joy
O LOUVOR é uma forma de amor que sempre traz em si um elemento de alegria. Louvor na ordem certa; a ele, como doador, e a ela, como presente. No louvor nos alegramos, de alguma forma, com a coisa que estamos louvando, não importa o quão longe estejamos dela, certo? Eu iria até mais longe. A alegria que eu tinha em H. me foi tirada. E estou bem longe, imerso em minha dessemelhança, daquele gozo que um dia eu espero ter em Deus se suas misericórdias forem infinitas para comigo. Mas louvando, ainda posso, até certo ponto, alegrar-me nela e também, até certo ponto, alegrar-me nele. Isso é melhor do que nada.
Porém, talvez me falte o dom. Reconheço que comparei H. a uma espada. Isso é verdade, até certo ponto. Contudo é, em última instância, pouco apropriado em si mesmo, e pode redundar no engano. Eu deveria ter sido mais equilibrado. Na verdade, eu deveria ter acrescentado: "Mas ela é também como um jardim. Como um conjunto de jardins, com paredes, cercas e, mais secreto, mais cheio de fragrância e vida fértil conforme você entra nele".
Então só o que me resta é louvá-la e a todas as coisas criadas, que são, "de alguma forma, e uma forma única, como àquele que as fez".
E assim por diante, do jardim ao Jardineiro, da espada ao Ferreiro, devo louvar a vida doadora de vida e a beleza torna tudo belo.
"Ela está nas mãos de Deus". Essa ideia renova minhas energias quando penso nela como uma espada. Talvez a vida que eu compartilhei com ela neste mundo foi apenas parte do processo de temperá-la. Agora, quem sabe, ele desembainhe a espada; pese sua arma nova; faça desenhos no ar com ela - "a verdadeira espada de Jerusalém".
[C. S. Lewis]
- de A Grief Observed [A Anatomia de Uma Dor]
15 de julho de 2013
COM TERNURA
|15 DE JULHO|
Lewis lamenta a morte de sua esposa, Joy
QUEM liga para esse meu sofrimento, para como ele está se processando ou para o que eu faço com ele? Que diferença fazem as minhas lembranças dela, se é que me lembro dela? Nenhuma dessas coisas poderia aliviar ou agravar o sofrimento pelo qual ela passou.
A aflição do passado. Como eu posso saber que toda a sua aflição já passou? Eu nunca acreditei - ou pelo menos achava muito improvável - que a mais crédula das almas fosse capaz de passar direto para a perfeição e para a paz no momento em que a morte apertasse a sua garganta. Passar a acreditar nisso agora seria brincar com o desejo de vingança. H. era fantástica; uma alma simples e direta, brilhante e precisa como uma espada. É claro que ela não era nenhuma santa. Ela era uma mulher pecadora, cada com um homem pecador; dois pacientes de Deus, ainda não curados. Sei muito bem que há apenas lágrimas para secar, mas também máculas para ser expurgadas. E com isso, a espada ficará até mais afiada.
Mas, ó Deus, faça-o com ternura.
[C. S. Lewis]
- de A Grief Observed [A Anatomia de Uma Dor]
14 de julho de 2013
CHARUTOS NO CÉU
|14 DE JULHO|
Lewis lamenta a morte de sua esposa, Joy
TENHO PLENA consciência de que os meus desejos mais internos são precisamente os que eu jamais terei capacidade de conquistar. A velha vida, as piadas, os drinques, as discussões, o fazer amor, o pequeno e o comovente lugar-comum. Não importa a partir de que ângulo eu encare. Dizer "H. está morta" é dizer "Tudo isso já era". Isso já faz parte do passado. E o passado é o que o tempo significa. E o próprio tempo é outro nome que damos à morte. E o céu é um lugar onde "as coisas velhas já passaram".
Sou aberto para conversar sobre a verdade da religião e ouvirei com a maior satisfação. Você pode até me falar dos deveres da religião; sou todo ouvidos. Porém, se me vier com a conversa de que a religião é algum tipo de consolo, suspeitarei que você não sabe do que está falando.
A menos, é claro, que você acredite literalmente em tudo que se diz sobre os encontros familiares "no outro mundo", descritos numa perspectiva totalmente terrena. Esse tipo de coisa é antibíblica e tirada de músicas e litogravuras de péssima qualidade. Não há uma só palavra sobre isso na Bíblia. Sabemos muito bem que não pode ser verdade. A realidade nunca se repete. Nunca somos privados de alguma coisa para depois recuperá-la como era antes. Como os espiritualistas mordem a isca! [Eles alegam que] "as coisas desse lado não são em nada diferentes". Teremos até charutos no céu, pois são por coisas desse tipo que todos nós ansiamos. O querido passado restaurado.
É por isso, e só por isso, que clamo, com loucas súplicas e exigências cegas feitas para o vazio.
[C. S. Lewis]
- de A Grief Observed [A Anatomia de Uma Dor]
13 de julho de 2013
SIMPLESMENTE UMA FASE
|13 DE JULHO|
Lewis lamenta a morte de sua esposa, Joy
ENTÃO, de repente, uma pessoa conhecida morre. E vemos isso como um amor bruscamente interrompido, com uma dança suspensa bem no meio da evolução, ou como uma flor cujo botão foi decepado de forma cruel - algo truncado e que, por isso mesmo, ficou todo deformado. Fico espantado. Não consigo deixar de suspeitar que os mortos também sentem as dores da separação (e quem sabe esse não seja um dos sofrimentos purgativos). Nesse caso, o luto se torna, para ambos os amantes e para todos os casais, sem exceção, uma parte universal e integral da experiência de amor. Ele é a sequência normal do casamento, assim como o casamento é a sequência do namoro e o outro é a sequência do verão. Não se trata de um processo truncado, mas de uma de suas fases; não se trata de uma interrupção da dança, mas da próxima sequência musical. Enquanto a pessoa amada está viva, ela nos "arranca para fora de nós mesmos". O que entra em cena depois disso é o espetáculo trágico de uma coreografia em que precisamos aprender a continuar sendo "arrancados de dentro de nós mesmos", apesar da ausência da presença corpórea; precisamos continuar a amar sem cair no erro de passar a amar o nosso passado, ou então, a nossa memória, ou o nosso sofrimento, ou o alívio do sofrimento, ou, quem sabe, o nosso próprio amor.
[C. S. Lewis]
- de A Grief Observed [A Anatomia de Uma Dor]
12 de julho de 2013
FALSA HUMILDADE
|12 DE JULHO|
PENSO que muitos de nós, quando Cristo nos capacita a superar um ou dois pecados que realmente incomodam, tendemos a achar (ainda que não o expressemos em palavras) que já nos tornamos bons o suficiente. Deus já fez tudo que queríamos que fizesse, então nós agradeceríamos se ele nos deixasse sozinhos. Como costumamos dizer: "Eu não esperava ser santo, eu só queria ser uma pessoa normal". E, quando dizemos isso, achamos que estamos sendo humildes.
Porém, esse é um erro fatal. É claro que nós jamais desejamos e pedimos para ser transformados no tipo de criaturas em que ele irá no transformar. Contudo, a questão não é o que pretendíamos ser, e sim o que ele pretendia que nós fossemos quando nos criou. Ele é o inventor, nós somos as máquinas. Ele é o pintor, nós somos suas telas. Como poderíamos saber o que ele quer que sejamos? Veja bem, Deus já nos tornou em algo bem diferente do que éramos. Há muito tempo. antes de termos nascido, quando estávamos dentro da barriga de nossa mãe, passamos por vários estágios. Já fomos parecidos com vegetais e com peixes: foi só em um estágio posterior que nos tornamos bebês humanos. E, se estivéssemos conscientes disso naqueles estágios anteriores, ouso dizer, teríamos nos contentado em permanecer como vegetais ou peixes - não teríamos muita vontade de nos tornar bebês. Mas ele conhecia o plano que tinha para nós o tempo todo e estava determinado a colocá-lo em prática. Algo parecido com isso está acontecendo agora, num nível mais alto. Muitas vezes nos contentamos em permanecer como "pessoas comuns"; mas Deus está determinado a por em prática um plano bem diferente. Fugir desse plano não tem nada de humildade; trata-se na verdade de preguiça e covardia. Submeter-se a tal plano não significa prepotência ou megalomania, e sim obediência.
[C. S. Lewis]
- de Mere Christianity [Cristianismo Puro e Simples]
11 de julho de 2013
TUDO OU NADA
|11 DE JULHO|
POR UM lado, a reivindicação divina por perfeição não deve, de forma alguma, desencorajá-lo em suas atuais tentativas de ser bom, nem mesmo nos erros cometidos no dia de hoje. Cada vez que você cair, ele o levantará de novo. Ele sabe perfeitamente que por seus esforços você jamais se aproximará da perfeição. Por outro lado, você precisa receber desde já que o fim para o qual Cristo começa a guiá-lo é a perfeição plena; e nenhum poder em todo o universo, a não ser você mesmo, pode impedi-lo de fazer você chegar a esse objetivo. É para isso que você está aqui. E é muito importante que você perceba isso. Se não percebermos, então é muito provável que comecemos a rejeitá-lo e a resistir a ele depois de certo ponto.
[C. S. Lewis]
- de Mere Christiniaty [Cristianismo Puro e Simples]
10 de julho de 2013
"EU O TORNAREI PERFEITO"
|10 DE JULHO|
ELE bem que advertiu as pessoas a "calcularem o custo" antes de se tornarem cristãs. "Não cometa nenhum erro", ele diz; "se você deixar, eu o farei perfeito. Na hora em que você se coloca em minhas mãos, isso é o que acontecerá. Nada menos ou diferente disso. Você tem livre-arbítrio, e se quiser pode até me rejeitar. Porém, se você não me empurrar, pode ter certeza que eu vou levar adiante esse trabalho. Não importa o sofrimento que cause em sua vida terrena, não importa que purificação inconcebível possa lhe custar depois da morte, não importa o quanto custe para mim, eu nunca descansarei, nem o deixarei descansar, até que você esteja literalmente perfeito - até que o meu Pai possa dizer sem reservas que ele se agrada de você, da mesma forma que disse que se agradava de mim. Isso eu posso e vou fazer. Mas não irei nada menos do que isso".
O outro lado igualmente importante disso é que, esse ajudador que, ao longo do processo, não fica satisfeito com nada menos do que a perfeição absoluta, também terá prazer nos primeiros esforços débeis e trôpegos que você fará amanhã para realizar o seu dever mais simples. Como um grande escritor cristão [George MacDonald) já dizia, todo pai se agrada com as primeiras tentativas do seu bebê para andar; nenhum pai ficaria satisfeito com algo menos do que um andar firme, desimpedido e masculino no seu filho adulto. Da mesma forma, diz ele, "Deus é fácil de agradar, mas muito difícil de satisfazer".
[C. S. Lewis]
- de Mere Christianity [Cristianismo Puro e Simples]
9 de julho de 2013
O TRATAMENTO COMPLETO
|9 DE JULHO|
ACHO que muitas pessoas já se aborreceram com [...] as palavras divinas: "Sejam perfeitos". Alguns parecem achar que isso significa: "enquanto vocês não forem perfeitos, eu não os ajudarei"; e como não conseguimos ser perfeitos, se Cristo quisesse dizer isso mesmo, nossa situação seria desesperadora. Porém, não acredito que ele quis dizer isso mesmo. Desconfio que ele quis dizer: "A única ajuda que eu lhe darei será para você se tornar perfeito. Você pode até querer algo menos, mas eu não lhe darei nada menos do que isso".
Deixe-me explicar. Quando criança, muitas vezes eu tinha dor de dente, e sabia que, se eu falasse com a minha mãe, ela me daria algo que pararia com a dor durante aquela noite e me deixaria dormir. Mas eu não procurava a minha mãe - pelo menos não até a dor ficar realmente intensa. E eu tinha boas razões para tanto. Eu não duvidava que ela me daria a aspirina; mas eu sabia que ela faria algo mais. Eu sabia que ela me levaria ao dentista na manhã seguinte. Eu não podia obter dela o que eu estava querendo a não ser recebendo algo mais, que eu não queria. Eu desejava alívio imediato da dor; mas eu não o podia obter sem ter os meus dentes tratado permanentemente. E eu conhecia bem os dentistas; sabia que eles começariam a tratar outros dentes que ainda não tinham começado a doer. O lema dele é que é melhor prevenir do que remediar e, se você lhes dá um dedo, eles querem a mão toda.
Agora, se eu puder colocar dessa maneira, o Nosso Senhor é como um dentista. Se você lhe estende um dedo, ele pegará toda a sua mão. Muitas pessoas o procuram para serem curadas de algum pecado particular do qual tem vergonha (como masturbação ou covardia física) ou que obviamente está assolando sua vida diária (como mau humor ou bebedeira). Bem, ele o curará, sim; mas ele não irá parar por aí. Pode até ser que isso seja tudo o que você tenha pedido a ele; mas, uma vez que você o chame para entrar, ele lhe oferecerá tratamento completo.
[C. S. Lewis]
- de Mere Christianity [Cristianismo Puro e Simples]
8 de julho de 2013
PROTEGENDO-SE DO VENTO
|8 DE JULHO|
O VERDADEIRO problema da vida cristã aparece onde as pessoas normalmente não o procuram. Ele aparece no instante em que você acorda a cada manhã. Todos os seus desejos e esperança para o dia invadem você como animais selvagens. E a primeira tarefa de cada manhã consiste simplesmente em empurrá-los para trás; em dar ouvidos àquela outra voz, tomar aquele outro ponto de vista, deixar aquela outra vida mais ampla, mais forte e mais calma entrar como um brisa. E assim por diante, todos os dias. Manter distância de todas as inquietações e de todos os aborrecimentos naturais, proteger-se do vento.
No começo, somos capazes de fazê-lo somente por alguns momentos. No entanto, esse novo tipo de vida estará se propagando por todo o nosso ser, porque agora estamos deixando Cristo trabalhar em nós no lugar certo. Trata-se da diferença entre a tinta, que está simplesmente deitada na superfície, e um mofo ou mancha que penetra mais fundo. Jesus nunca disse baboseiras vagas e idealistas. Quando ele disse "sede perfeitos", quis dizer isso mesmo. Ele quis dizer que precisamos passar pelo tratamento completo. É muito duro; mas o tipo de compromisso que todos nós desejamos ardentemente é mais difícil - na verdade, é impossível. Pode ser duro para um ovo transformar-se em um pássaro; seria uma visão deveras divertida, e algo muito mais difícil, tentar voar enquanto ainda se é um ovo. Hoje nós somos como ovos. Porém, você não pode se contentar em ser um ovo comum, ainda que decente. Ou a sua casca se rompe ou você apodrecerá.
[C. S. Lewis]
- de Mere Christianity [Cristianismo Puro e Simples]
7 de julho de 2013
NOVA PERSPECTIVA
|7 DE JULHO|
O CRISTIANISMO afirma que cada ser humano viverá para sempre, e isso pode ser verdadeiro ou falso. Agora, tenho uma grande quantidade de coisas com as quais não vale a pena me preocupar se eu for viver só setenta anos, mas com as quais eu devo me preocupar se penso em viver para sempre. Talvez o meu mau humor ou a minha inveja estejam ficando gradativamente piores - de forma tão gradativa que o aumento durante esses setenta anos não será muito perceptível. Entretanto, isso pode vir a se tornar um inferno absoluto em um milhão de anos; de fato, se o cristianismo é verdade, inferno é o termo técnico mais correto para o que viria a ser. E a imortalidade gera essa outra diferença que tem algo a ver com a diferença entre o totalitarismo e a democracia. Se os indivíduos vivessem somente setenta anos, então um estado, ou nação, ou civilização que talvez dure mil anos seria mais importante que o indivíduo. Porém, se o cristianismo estiver correto, então o indivíduo não é apenas mais importante, mas incomparavelmente mais importante, pois ele é eterno, e a vida de um estado ou civilização, comparada com a sua, não passa de um momento.
[C. S. Lewis]
- de Mere Christianity [Cristianismo Puro e Simples]
6 de julho de 2013
REMÉDIO, NÃO ALIMENTO
|6 DE JULHO|
A IGUALDADE é para mim o mesmo que as roupas. Resulta da queda e é o remédio para ela. Qualquer tentativa de retroceder nos passos que demos até chegar ao igualitarismo e de reintroduzir as velhas autoridades no âmbito político é para mim tão tola quanto seria o ato de tirarmos toda a roupa. Tanto os nazistas quanto os nudistas cometem o mesmo erro. Porém, é o nosso corpo nu que continua existindo debaixo das roupas. É o mundo hierárquico, ainda vivo e (muito apropriadamente) escondido por trás da fachada de uma cidadania igualitária, que é a nossa preocupação real.
Por favor, não me entenda mal. Não estou reduzindo o valor dessa ficção igualitária, que é a nossa única defesa contra a crueldade mútua. Devo reprovar qualquer proposta de abolir o voto universal, ou o Married Women's Property Act*. Porém, a função da igualdade é puramente preventiva. Trata-se de medicina, não de alimento. Ao tratarmos os seres humanos (numa oposição prudente dos fatos observados) como se fossem todos do mesmo tipo, evitamos inúmeros males. No entanto, não fomos criados para viver com base nisso.
*Lei de propriedade das mulheres casadas, que lhes garantia alguns direitos de posse.
[C. S. Lewis]
- de The Weight of Glory [Peso de Glória]
5 de julho de 2013
O IMPERATIVO DEMOCRÁTICO
|5 DE JULHO|
EU ACREDITO na igualdade política. Porém, há duas razões opostas para alguém ser um democrata. Por um lado, você pode pensar que todos os homens são tão bons que merecem um lugar no governo da comunidade, e tão sábios que a comunidade necessita do seu conselho. Essa é, na minha opinião, a doutrina falsa e romântica do governo democrático. Por outro lado, você pode achar que o homem decaído é tão mau que nenhum homem merece confiança suficiente para exercer qualquer poder sobre os seus companheiros.
Acredito que essa seja a base verdadeira da democracia. Não acredito que Deus tenha criado um mundo igualitário. Acredito que a autoridade do pai sobre o filho, do marido sobre a esposa, do mais culto sobre o menos instruído é tão parte do plano original quanto a autoridade do homem sobre os animais. Creio que, se não tivéssemos caído, [...] a monarquia patriarcal seria a única forma de governo justa. Mas, como aprendemos a pecar, descobrimos, como o Lorde Acton diz, que "todo poder corrompe e o poder absoluto corrompe de forma absoluta". O único remédio tem sido abolir os poderes e substituí-los por uma ficção legal de igualdade. A autoridade do pai e do marido foi corretamente abolida no plano legal, não porque ela é má em si mesma (pelo contrário, trata-se, creio, de algo divino na origem), mas por causa da maldade dos pais e dos maridos. A teocracia foi corretamente abolida, não porque a autoridade dos padres sobre os leigos é ruim, mas porque os padres são pessoas tão más quanto todos nós. Até mesmo a autoridade do homem sobre os animais teve de ser restringida, porque ela é constantemente abusiva.
[C. S. Lewis]
- de The Weight of Glory [Peso de Glória]
4 de julho de 2013
A TIRANIA DA DEMOCRACIA
|4 DE JULHO|
Screwtape revela o seu objetivo definido
EU GOSTARIA que você focasse a sua atenção no vasto e poderoso momento em direção ao descrédito e, finalmente, à erradicação de todo o tipo de excelência humana - moral, cultural, social e intelectual. E não é bonito notar como agora a democracia (no sentido ilusório) está fazendo por nós o serviço que outrora era realizado pelas mais antigas ditaduras e com os mesmos métodos? Você lembra que um dos ditadores gregos (na época eles o chamavam de "tiranos") enviou um mensageiro a outro ditador para solicitar seu conselho sobre os princípios de governo. O segundo ditador levou o mensageiro a um campo de cereais e ali cortou com uma vara a ponta de toda haste que fosse uma ou duas polegadas mais alta que o nível geral. A lição era clara: não permita que ninguém entre os seus súditos se destaque. Não deixe sobreviver ninguém que seja mai sábio, ou mais bondoso, ou mais famoso, ou até mesmo mais belo que a maioria. Corte-os até ficarem no mesmo nível; todos escravos, todos insignificantes, todos "ninguéns". Todos iguais. Era assim que os tiranos praticavam, em certo sentido, a "democracia". Acontece que hoje a "democracia" é capaz de fazer o mesmo trabalho, sem nenhum outro tipo de tirania, a não ser ela mesma. Ninguém mais precisa ir ao campo com uma vara. Hoje as pequenas hastes arrancam a ponta dos grandes com os dentes. E as grandes estão começando a arrancar as suas próprias pontas, na esperança de se tornarem iguais às outras.
[C. S. Lewis]
- de The Screwtape Letters [Cartas do Diabo a seu Aprendiz]
3 de julho de 2013
O ENCANTAMENTO ANTIDEMONÍACO
|3 DE JULHO|
Screwtape apresenta evidências da corrupção do pensamento
AGORA, essa evidência tão útil de corrupção [o pensamento: "Sou tão bom quanto você"] não é nada nova em si mesma. Ela já é conhecida pelos seres humanos há milhares de anos pelo nome de inveja. Porém, até hoje, eles sempre se referem a isso como o mais odioso e, ao mesmo tempo, o mais cômico de todos os vícios. Quem se dava conta desse sentimento sentia vergonha; quem não o percebia também não o percebia nos outros. A novidade mais prazerosa da presente situação é que você pode sancionar esse vício - torná-lo respeitável e até louvável - pelo uso mágico da palavra democrático.
Sob a influência desse encantamento, todos aqueles que estão, ou são, de alguma forma inferiores, podem trabalhar com mais afinco e suceder em rebaixar todas as pessoas ao seu próprio nível. Mas isso não é tudo. Sob a mesma influência, aqueles que chegam ou poderiam chegar mais perto de uma humanidade completa, na verdade se afastam dela com medo de serem antidemocráticos. Fui informado por fontes bastante seguras de que os jovens de hoje tentem a reprimir seu gosto secreto pela música clássica ou a boa literatura com medo de que isso os impeça de ser pessoas comuns; e que pessoas que realmente desejavam ser honestas, castas ou moderadas, e que tem ao seu dispor a graça que as capacitaria a ser, se recusam a ser. A aceitação poderia torná-las diferentes, representaria outra ofensa ao seu estilo de vida, tirá-las-ia do todo, prejudicaria a sua integração com o grupo. Elas talvez (que horror!) se tornariam indivíduos.
Tudo se resume a uma oração proferida recentemente por uma jovem: "Ó Deus, permita que eu seja uma menina normal do século vinte". Graças aos nosso esforços, isso pode ser cada vez mais entendido como: "Faça de mim uma uma pessoa vulgar, um idiota e um vagabundo".
[C. S. Lewis]
- de The Screwtape Letters [Cartas do Diabo a seu Aprendiz]
2 de julho de 2013
"SOU TÃO BOM QUANTO VOCÊ"
|2 DE JULHO|
Screwtape revela o gênio diabólico que faz os seres humanos afirmarem: "Sou tão bom quanto você"
A PRIMEIRA e mais óbvia vantagem disso é que, dessa forma, você induz o indivíduo a entronizar no centro de sua vida uma bela, sólida e retumbante mentira. Não estou me referindo simplesmente ao fato de que esta afirmação seja falsa, pois um ser humano é tão igual aos outros na honestidade, bondade e bom-senso quanto o é com relação à altura e às medidas físicas. O que quero dizer é que, na verdade, ele não acredita nessa afirmação. Nenhum homem que diga "sou tão bom quanto você" acredita nisso. Ele não diria isso se acreditasse. O cão São Bernardo não diz isso a um cachorro de brinquedo, nem o catedrático ao ignorante, nem o contratado ao desempregado, nem a mulher bonita à feia. A reivindicação de igualdade, fora do campo estritamente político, só é feita por aqueles que se sentem, de uma forma ou de outra, inferiorizados. O que isso revela é a consciência perturbada, doída, retorcida de uma inferioridade que o paciente se recusa a aceitar.
E por isso ele se magoa. Sim, fica ressentido com todo tipo de superioridade da parte dos outros; ele a denigre, desejando o seu aniquilamento. Chega ao ponto em que qualquer pequena diferença é interpretada por ele como uma tentativa do outro de se impor como superior. Ninguém pode ser diferente de na voz, na maneira de se vestir, no comportamento, na recreação, na escolha da comida. "Esse camarada fala inglês de forma mais clara e melodiosa do que eu - ele deve ser um metido, um arrogante, um pretensioso. Aquele camarada que diz que não gosta de cachorro-quente - sem dúvida, pensa que é bom demais para esse tipo de comida. Temos aqui um homem que não abriu a boca. Deve-se tratar de um daqueles sabichões intelectuais e está fazendo isso só para se mostrar. Se ele fossem o tipo certo de gente, eles seriam como eu. Não cabe a eles serem diferentes. Isso não é nada democrático".
[C. S. Lewis]
- de The Screwtape Letter [Cartas do Diabo a seu Aprendiz]
1 de julho de 2013
CONTROLE-OS
|1 DE JULHO|
Screwtape apresenta suas propostas para administrar os modernos
DEMOCRACIA é a palavra-chave com que você deve ludibriá-los. O bom trabalho que os nossos especialistas em filologia já fizeram, corrompendo a linguagem humana, torna desnecessário avisá-lo que não se deve permitir que eles deem a essa palavra um sentido definido e claro. Eles não o fariam. Jamais lhes passaria pela cabeça que democracia é uma palavra apropriada apenas para designar um sistema político, ou até mesmo um sistema de votação, e que isso tem somente uma remota e tênue conexão com o que você está querendo lhes vender. [...]
Você deve usar este termo como uma palavra mágica, unicamente pelo seu poder de venda. É um palavra que todos veneram. E é claro que ela está associada ao ideal político de que o homem deve ser tratado com igualdade. Você deve sorrateiramente distorcer esse ideal político em sua mente, substituindo-o pela crença de que todas as pessoas são iguais. Especialmente o indivíduo em quem você está trabalhando. Consequentemente, a palavra democracia pode ser usada para legitimar os sentimentos humanos mais degradantes (e também os menos agradáveis) de todos os sentimentos. Você pode levá-lo a praticar, não só de forma desenvergonhada, mas também com uma aura de autoafirmação, comportamentos que, sem a ajuda da palavra mágica, seriam universalmente ridicularizados.
O sentimentos a que estou me referindo, é claro, é o que leva o homem a dizer: "Eu sou tão bom quanto você".
[C. S. Lewis]
- de The Screwtape Letters [Cartas do Diabo a seu Aprendiz]
30 de junho de 2013
MAIS RATOS AINDA
|30 DE JUNHO|
APARENTEMENTE, os ratos do ressentimento e da vingança estão sempre ali no porão da minha alma. Porém, esse porão está fora do alcance da minha vontade consciente. Posso controlar os meus atos até certo ponto, mas não tenho controle direto sobre o meu temperamento. E se (como eu disse anteriormente) o que somos importam muito mais do que fazemos - se, de fato, o que fazemos funciona principalmente como uma evidência do que os meus próprios esforços diretos e voluntários não são capazes de fazer, E isso também se aplica às minhas boas ações. Quantas delas foram realizadas pelo motivo certo? Quantas foram por medo da opinião pública ou pelo desejo de se mostrar? Quantas foram por algum tipo de obstinação ou senso de superioridade que, em outras circunstâncias, poderiam igualmente ter levado a algum ato maligno? O fato é que eu não posso, por nenhum esforço moral, fornecer novos motivos a mim mesmo. Depois dos primeiros passos da vida cristã, acabamos percebendo que tudo o que realmente precisa ser feito nas nossas almas só pode mesmo ser realizado por Deus.
[C. S. Lewis]
- de Mere Christianity [Cristianismo Puro e Simples]
29 de junho de 2013
RATOS NO PORÃO
|29 DE JUNHO|
COMEÇAMOS então a perceber a nossa própria pecaminosidade, além dos atos pecaminosos em particular. Começamos a ficar alarmados não apenas com o que fazemos, mas com o que somos. Como isso pode parecer muito difícil de entender, vou tentar esclarecer o meu próprio caso. Quando faço as minhas orações à noite e tento lembrar dos pecados do dia, em noventa por centro das vezes, o mais evidente de todos os pecados acaba sendo o da falta de misericórdia: fui mal-humorado ou rabugento, ou sarcástico ou implicante. E a desculpa que imediatamente aparece é que a provocação foi tão repentina e inesperada que não tive tempo de me dominar. Ora, essa pode ter sido uma circunstância extrema, relacionada com aqueles atos em particular: eles obviamente seriam piores, se tivessem sido deliberados e premeditados. Por outro lado, a reação de uma pessoa quando é pega de surpresa não é a melhor evidência do tipo de pessoa que ela é? Será verdade o que aparece diante dos olhos antes de se colocar um disfarce? Se há ratos no porão, é mais provável você os apanhar se entrar de repente. Porém, o repente não cria os ratos; apenas impede que se escondam. Da mesma forma, o fato de a provocação ter sido repentina não me torna uma pessoa mal-humorada; ela apenas mostra meu próprio mau-humor. Os ratos sempre estarão no porão, mas se você entrar gritando e fazendo barulho, eles acabarão se escondendo antes de você acender as luzes.
[C. S. Lewis]
- de Mere Christianity [Cristianismo Puro e Simples]
28 de junho de 2013
À MEDIDA QUE NOS TORNAMOS COMO CRISTO
|28 DE JUNHO|
AGORA começamos a compreender o que o Novo Testamento está sempre falando. Ele fala que os cristãos "nascem de novo"; que eles "se revestem de Cristo". E fala sobre Cristo "sendo formado em nós"; sobre chegarmos a ter a "mente de Cristo".
Tire de vez da sua cabeça a ideia de que essas expressões não passam de um modo extravagante de dizer que os cristãos devem ler o que Cristo disse e tentar colocar em prática. É muito mais do que isso. O que essas expressões estão dizendo é que uma pessoa real, Cristo, aqui e agora, naquele mesmo quarto em que você estava orando, realiza coisas em você. Não se trata apenas de um homem bom que morrer há dois mil anos. Trata-se de um homem vivo, tão homem quanto você e, ao mesmo tempo, tão Deus quanto era quando criou o mundo - que vem de verdade e interfere no mais íntimo do seu ser. Ele mata seu velho eu natural e substitui pelo tipo de eu que ele é. No começo, dura apenas alguns instantes. Mais tarde, embarca períodos maiores. Finalmente, se tudo for bem, acaba transformando-o permanentemente num ser totalmente diferente: num novo pequeno Cristo, um ser que, a seu modo, tem o mesmo tipo de vida que Deus, e que compartilha do seu poder, da sua alegria, do seu conhecimento e da sua eternidade.
[C. S. Lewis]
- de Mere Christianity [Cristianismo Puro e Simples]
27 de junho de 2013
QUANDO A SIMULAÇÃO SE TORNA REALIDADE
|27 DE JUNHO|
VÊ O QUE está acontecendo? O próprio Cristo, o Filho de Deus que é homem (assim como você), e Deus (assim como seu Pai), está realmente ao seu lado e, nesse momento, está começando a transformar em realidade todo o seu comportamento simulado. Isso não é meramente uma forma extravagante de dizer que à sua consciência, obterá um resultado; se lembrar que está vestido de Cristo, chegará a um resultado diferente. Há muitas coisas que a sua consciência pode não chamar de totalmente erradas (particularmente as coisas da sua mente), mas que imediatamente você compreende que não podem ser mais aceitas, se você estiver seriamente se dispondo a ser como Cristo. Porque você não está mais simplesmente pensando sobre o certo e o errado; está tentando pregar o "bom contágio" de uma Pessoa. Trata-se mais de como pintar um retrato do que de seguir um conjunto de regras. E o estranho é que, embora em certo sentido isso pareça muito mais difícil do que seguir regras, de certa forma é muito mais fácil.
Quem está ao seu lado é o Filho de Deus. Ele está começando a transformar você naquilo que ele mesmo é. Ele está começando, por assim dizer, a "injetar" a vida e o pensamento dele, o seu Zoe, dentro de você; começando a transformar os soldadinhos de chumbo em pessoas vivas. A parte de você que não gosta disso é a parte que ainda é de chumbo.
[C. S. Lewis]
- de Mere Christianity [Cristianismo Puro e Simples]
26 de junho de 2013
SIMULANDO UM POUCO MENOS
|26 DE JUNHO|
MUITAS vezes a única forma de se adquirir uma virtude é comportar-se como se já a tivesse conquistado. Eis porque as brincadeiras das crianças são tão importantes. Elas estão sempre fazendo de conta que são adultas - brincando de soldado, de ir ao supermercado, etc. Mas o tempo todo elas estão desenvolvendo seus músculos e aguçando suas habilidades, de modo que essa imitação dos adultos as ajudam a crescer e se tornarem adultos de fato.
Agora, no momento em que você percebe que "aqui estou, vestido-me de Cristo", é muito provável que você seja capaz de imediatamente reconhecer algum meio de fazer com que a sua atitude se torne menos simulada e mais real. Você se lembrará de ter feitos várias coisas que não faria se você fosse, de fato, um filho de Deus. Bem, então pare de fazê-las. E quem sabe você se lembre de que, em vez de estar em seu quarto orando, deveria estar em outro lugar, escrevendo uma carta, ou ajudando sua esposa a lavar a louça. Bem, nesse caso, vá e faça isso.
[C. S. Lewis]
- de Mere Christianity [Cristianismo Puro e Simples]
25 de junho de 2013
VAMOS SIMULAR
|25 DE JUNHO|
E O QUE FAZER agora? Que diferença faz toda essa teologia? Ela pode começar a fazer diferença hoje mesmo. Se você estivesse interessado a ponto de chegar até aqui, então provavelmente também está interessado em tentar orar; e no meio das suas orações certamente você vai incluir a oração do Pai-Nosso.
Começa com o Pai Nosso. Será que você consegue compreender o que essas palavras significam? Elas querem dizer francamente que você está se colocando no lugar de um filho de Deus. Para me expressar de forma mais clara e direta, você está se vestindo de Cristo. Ou, se quiser, está simulando, porque é claro que, a partir do momento em que você se dá conta do que essas palavras significam, notará logo que não é filho de Deus. Você não é um ser como o filho de Deus, cuja vontade e interesses são um com os do Pai. Você não passa de um monte de medos, esperanças, ganâncias, invejas e vaidades auto centradas, tudo conduzindo à morte. De modo que, de certa forma, esse vestir-se de Cristo é um ato um tanto pretensioso. Contudo, por mais estranho que pareça, foi ele mesmo que nos mandou proceder assim.
Por quê? Qual a vantagem de fingirmos ser o que não somos? Bem, mesmo no nível humano, há duas formas de simulação. Há o tipo errado, em que a pretensão toma o lugar da coisa real, como uma pessoa que finge que vai ajudar, mas na verdade não ajuda nada. Porém existe também a forma boa, em que a pretensão leva à coisa real: quando você não está se sentindo particularmente amigável, mas sabe que tem de ser, a melhor coisa a fazer, muitas vezes, é simular m comportamento cordial e comportar-se como se fosse mais amigável do que realmente é. E em alguns minutos, todos nós notaremos: você realmente estará se sentindo bem mais amigável do que antes.
[C. S. Lewis]
- de Mere Christianity [Cristianismo Puro e Simples]
24 de junho de 2013
O MAIS DIFÍCIL É O MAIS FÁCIL
|24 DE JUNHO|
PERGUNTE aos professores se não é verdade que o aluno mais preguiçoso da classe é o que acaba trabalhando mais no final. O que eles querem dizer é isso: se você propuser a dois alunos, por exemplo, um problema de geometria, o que está preparado para assumir o problema, tentará entendê-lo. O garoto preguiçoso tentará decorá-lo, porque isso exige menos esforço naquele momento. Porém, seis meses depois, quando eles estiverem se preparando para as provas, o preguiçoso gastará horas e horas tentando entender o que o outro aluno já havia entendido. No final das contas, a preguiça significa mais trabalho. Ou então, olhe as coisas por esse lado: na batalha ou na escalada de uma montanha, geralmente há um movimento que exige muita coragem para ser realizado; mas, a longo prazo, é também a coisa mais segura a ser feita. Se você for covarde, acabará se encontrando, algumas horas mais tarde, em perigo ainda maior. A opção pela covardia é também a mais perigosa.
É o que está acontecendo aqui. A coisa mais temível, quase impossível de se fazer, é entregar todo o seu eu, todos os seus desejos e precauções, a Cristo. Porém, é bem mais fácil do que o que estamos tentando fazer em vez disso. O que estamos tentando fazer é permanecer no que chamamos de "nós mesmos", mantendo a felicidade pessoal como o nosso grande objetivo na vida, e ainda assim, ao mesmo tempo, ser "bons". Estamos todos tentando deixar a nossa mente e o nosso coração andarem pelos seus próprios caminhos - centrados no dinheiro, no prazer ou na ambição - e esperando, apesar disso, comportar-nos de forma honesta, pura e humilde. E é exatamente isso o que Cristo nos disse que não podemos fazer. Como ele mesmo disse, um cardo não pode produzir figos. Se eu sou um campo que não contém nada, a não ser sementes de grama, não posso esperar produzir trigo. Cortar a grama pode até mantê-la baixa, mas eu continuarei produzindo grama, e não trigo. Se eu quero produzir trigo, a mudança deve ser mais profunda. Devo ser arrancado e replantado.
[C. S. Lewis]
- de Mere Christianity [Cristianismo Puro e Simples]
23 de junho de 2013
MUITO FÁCIL OU DIFÍCIL DEMAIS?
|23 DE JUNHO|
REFLETIMOS sobre a ideia cristã de "revestir-se de Cristo", ou, antes, de "se vestir" como filho de Deus com o intuito de, no final, tornar-se um verdadeiro filho de Deus. O que gostaria de deixar claro é que esse não é somente um entre muitos trabalhos que um cristão tem a fazer; e não se trata de um tipo de exercício especial para uma classe superior. Isso é o cristianismo autêntico. O cristianismo não oferece mais nada além disso.
O caminho cristão é diferente: é mais difícil e, ao mesmo tempo, mais fácil. Cristo diz: "Entregue-me tudo. Não quero um pouco do seu tempo, um pouco do seu dinheiro e um pouco do seu trabalho; eu quero você. Não vim para atormentar o seu "eu" natural, mas para matá-lo. Meias medidas são inúteis. Não quero podar um ramo aqui e outro ali, quero é derrubar a árvore toda. Não quero drenar o dente, colocar uma coroa nele, ou obturá-lo; eu quer é arrancá-lo. Entregue todo o eu natural, todos os desejos que você considera inocentes, bem como aqueles que você considera maus - todo o aparato. Eu lhe darei em troca um novo eu. Na verdade, o que eu lhe darei é a mim mesmo; minha própria vontade se tornará a sua".
Isso é ao mesmo tempo mais difícil e mais fácil do que o que todos nós tentamos fazer. Espero que você tenha percebido que Cristo muitas vezes descreve o caminho cristão como algo muito difícil, e outras vezes como algo bem mais fácil. Ele diz: "Tome a sua cruz" - em outras palavras, é como ser surrado até a morte num campo de concentração. No minuto seguinte ele diz: "Meu jugo é suave e eu fardo é leve". E ele está querendo dizer as duas coisas.
[C. S. Lewis]
- de Mere Christianity [Cristianismo Puro e Simples]
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