20 de dezembro de 2013

UM SOLDADINHO DE CHUMBO GANHA VIDA

|20 DE DEZEMBRO|

COMO consequência, temos agora um homem que foi o que todos os homens deveriam ter sido: um homem em que a vida criada, derivada de sua mãe, pode transformar-se completa e totalmente na vida gerada. A criatura humana natural que estava nele foi completamente posta no Filho divino. Assim, de uma só vez, a humanidade, por assim dizer, chegou: passou para a vida de Cristo. E porque, para nós, toda a dificuldade é que a vida natural tinha de ser, por assim dizer, "morta", ele escolheu uma carreira terrena que envolvia matar os seus desejos humanos a cada momento - pobreza, incompreensão da parte da sua própria família, traição da parte de um dos seus amigos íntimos, zombaria e maus-tratos por parte dos guardas e execução pela tortura. E então, depois de ter sido assim morto - morto todos os dias, em certo sentido -, a criatura humana em Cristo, porque estava unida ao Filho divino, ressuscitou. O homem em Cristo voltou a viver novamente; não apenas o Deus. Eis aí toda a questão. Pela primeira vez nós vimos um homem de verdade. Um soldadinho de chumbo - de chumbo mesmo, como os demais - tornou-se vivo de forma plena e gloriosa.

[C. S. Lewis]
- de Mere Christianity [Cristianismo Puro e Simples]

19 de dezembro de 2013

OBSTINADO SOLDADINHO DE CHUMBO

|19 DE DEZEMBRO|

VOCÊ nunca pensou, quando criança, o quanto seria divertido se os seus brinquedos ganhassem vida? Bem, suponha que você realmente os tenha trazido à vida. Imagine que você possa transformar seus soldadinhos de chumbo em homenzinhos de verdade. Isso envolveria transformar chumbo em carne. E se o soldadinho de chumbo não gostar disso? Ele pode não estar interessado em carne; tudo o que ele vê é que o chumbo está sendo estragado, e pensa que você o está matando. Ele fará de tudo para impedi-lo. O soldadinho de chumbo não se tornará homem se puder evitar.
Não faço ideia do que você faria com aquele soldado de chumbo. Porém, o que Deus fez a nosso respeito foi o seguinte: a segunda pessoa em Deus, o Filho, tornou-se ele mesmo um ser humano, nascendo em um mundo como um homem de verdade - um ser humano real, com uma altura específica, com cabelo de uma cor específica, falando determinada língua e pesando tantos quilos. O ser eterno, que sabe de tudo e que criou todo o universo, não apenas se tornou homem, mas (antes disso) um bebê e, antes, um feto no interior do corpo de uma mulher. Para se ter uma ideia disso, imagine como seria se você se tornasse um caracol ou uma lesma.

[C. S. Lewis]
- de Mere Christianity [Cristianismo Puro e Simples]

18 de dezembro de 2013

DESCOBRINDO O SEU CÍRCULO DE AMIGOS VERDADEIROS

|18 DE DEZEMBRO|

A QUESTÃO do círculo fechado acabará te destruindo a menos que você a destrua. Porém, se você a destruir, o resultado será surpreendente. Se, em suas horas de trabalho, você faz do trabalho o seu fim, você instantaneamente acabará se encontrando, sem querer, dentro do único círculo em sua profissão que realmente interessa. Você será um dos especialistas e os outros especialistas o saberão muito bem. Tal grupo de especialistas não coincidirá, de forma alguma, com o círculo fechado ou com o grupo de pessoas importantes ou com as pessoas detentoras do saber. Ele não elaborará aquela política profissional nem articulará aquele movimento profissional que luta pela profissão como um todo contra o público, e também não fomentará aqueles escândalos e crises periódicos que o círculo fechado fomenta. Porém, ele fará coisas que aquela profissão existe para fazer e, a longo prazo, será responsável por todo o respeito que essa profissão goza e que nenhum discurso e propaganda seriam capazes de alcançar. E, se, em suas horas vagas, você simplesmente se junta com pessoas das quais você gosta, acabará, mais uma vez sem querer, achando-se no verdadeiro lado de dentro, percebendo que está seguro e confortável no centro de algo que, visto de fora, parecia exatamente um círculo fechado. Mas a diferença é que sua confidencialidade é acidental e a sua exclusividade é uma consequência, e ninguém é levado para dentro por algum encanto esotérico, pois são apenas quatro ou cinco pessoas que gostam umas das outras e se encontram para fazer coisas de que gostam. Isso se chama amizade. Aristóteles a identificou entre as virtudes. Ela é a causa, quem sabe, da metade da alegria que se pode ter neste mundo, e nenhum círculo fechado jamais poderia tê-la.

[C. S. Lewis]
- de The Weight of Glory [Peso de Glória]

17 de dezembro de 2013

PORQUE NÃO SER UM CAÇADOR DE CÍRCULOS FECHADOS

|17 DE DEZEMBRO|

PARA nove entre dez de vocês, a escolha capaz de levá-los à canalhice surgirá, quando surgir, em cores nada chocantes. Homens obviamente maus, que ameaçam ou subornam, quase não aparecerão. A oportunidade aparecerá entre uma bebida ou uma xícara de café, sob o disfarce de alguma trivialidade e entre uma piada e outra vinda dos lábios de um homem ou de uma mulher que você recentemente conheceu melhor e a quem você espera conhecer ainda mais - justo no momento em que você está mais ansioso em não parecer cruel, ingênuo ou esnobe. Será a dica de algo que não está muito de acordo com as regras técnicas do jogo limpo; algo que o público, ignorante e romântico, jamais entenderia; algo que até os de fora da sua própria profissão estariam aptos a denunciar; mas algo que "nós", diz seu novo amigo - e ao ouvir "nós" você tentará não ficar corado pelo simples prazer -, algo que "nós sempre fazemos". E você será levado para dentro não pelo desejo de lucro ou sossego, mas simplesmente porque, agora que o copo está tão perto dos seus lábios, você não suportaria ser empurrado de volta para o mundo escuro do lado de fora. Seria terrível ver a face do outro homem - aquela face genial, confidente e deliciosamente sofisticada - tornar-se subitamente fria e desprezível ao saber que você havia tentado fazer parte do círculo fechado e fora rejeitado. E, depois, se você for aceito, na semana seguinte será algo mais aquém das regras, e no ano que vem, mais ainda; mas tudo isso em meio a mais alegre e amigável atmosfera. Tudo pode acabar em um flagrante, em um escândalo e um serviço penal; talvez acabe em milhões, em reconhecimento e recompensas para seus companheiros. Mas você terá se tornado um canalha.
[...] De todas as paixões humanas, a paixão pelo círculo fechado é a mais habilidosa em fazer um homem que ainda não é muito mau praticar todo tipo de maldade.

[C. S. Lewis]
- de The Weight of Glory [Peso de Glória]

16 de dezembro de 2013

UMA MOLA PROPULSORA DA AÇÃO HUMANA

|16 DE DEZEMBRO|

MINHA intenção principal com este texto é simplesmente convencê-lo de que esse desejo é uma das grandes molas propulsoras permanentes da ação humana. Trata-se de um dos fatores que chegam a constituir o mundo da maneira como o conhecemos - todo emaranhado de luta, competição, confusão, suborno, desapontamento e propaganda, e se essa for uma das molas propulsoras permanentes, então você pode ter toda a certeza. A menos que você tome medidas preventivas, esse desejo acabará se tornando um dos principais fatores da motivação da sua vida, desde o primeiro dia em que você ingressa na sua profissão até ao dia em que você estará velho demais para ligar para isso. Isto será o natural - a vida que virá para você espontaneamente. Qualquer outro tipo de vida, se você a conduzir, resultará de um esforço consciente e contínuo. Se você não fizer nada em relação ao assunto, se você se deixar levar pela correnteza, provará ser, de fato, um caçador de "círculos fechados". Não digo que você terá sucesso, talvez tenha. Porém, seja se lamentando e sofrendo fora daqueles círculos em que você jamais entrará, ou passando triunfalmente cada vez mais para dentro deles - de uma forma ou de outra, você será esse tipo de gente.

[C. S. Lewis]
- de The Weight of Glory [Peso de Glória]

15 de dezembro de 2013

O IMPULSO SUTIL

|15 DE DEZEMBRO|

MUITAS vezes o desejo de fazer parte do círculo fechado se esconde tão bem que dificilmente somos capazes de reconhecer os prazeres da fruição. Os homens não contam apenas às suas esposas, mas também a si mesmos, o quanto é difícil trabalhar até tarde por causa de uma tarefa extra importante que somente eles saberiam fazer. Mas isso não é bem verdade. Trata-se de um terrível enfado... quando seu velho chefe te chama no canto e diz: "Você tem que participar disso de qualquer jeito" ou "Resolvemos que é você que tem que entrar nesse comitê". Ah, mas quão mais terrível é ser deixado de fora! É cansativo e pouco saudável perder as suas tardes de sábado, mas tê-las livres porque você não se importa é bem pior. 
Freud diria, sem dúvida, que tudo não passa de um subterfúgio do impulso sexual. Eu me pergunto se o sapato, algumas vezes, não está no outro pé. Eu me pergunto se, em tempos de promiscuidade, muita virgindade não foi perdida, menos em obediência a Vênus, do que em prol do movimento. É claro que, quando a promiscuidade está na moda, os castos são os que estão de fora. Eles são ignorantes em relação a alguma coisa que outras pessoas conhecem. Eles são os não-iniciados. E, quanto a assuntos mais leves, o número dos que começaram a fumar e dos que ficaram bêbados pela primeira vez por razões semelhantes provavelmente é bem grande.

[C. S. Lewis]
- de The Weight Of Glory [Peso de Glória]

14 de dezembro de 2013

ESTAR DENTRO

|14 DE DEZEMBRO|

ACREDITO que, na vida de todas as pessoas em determinados períodos, e na vida de muitas pessoas em todos os períodos compreendidos entre a infância e a velhice, um dos elementos mais dominantes é o desejo de estar dentro do círculo local e o terror de ser deixado de fora. Esse desejo, em uma de suas formas, foi bastante justificado pela literatura. Quero dizer, na forma de esnobismo. A ficção vitoriana está cheia de personagens consumidos pelo desejo de entrar naquele círculo particular que é ou era chamado de sociedade. Porém, é preciso ficar claro que "sociedade", nesse caso, é simplesmente um entre centenas de círculos e o esnobismo, portanto, somente uma forma do desejo de estar do lado de dentro. As pessoas que acreditam ser livres - e de fato são - do esnobismo, e que leem sátiras sobre ele com tranquila superioridade, podem acabar sendo devoradas por outra forma de desejo. Pode ser que a própria intensidade do seu desejo de penetrar em algum círculo diferente as deixe imunes aos atrativos da alta sociedade. Um convite de alguma duquesa seria desconfortável para uma pessoa que sofre com o senso de exclusão de algum grupo artístico ou comunista. Pobre homem - não são as salas largas e iluminadas, o champagne ou mesmo os escândalos sobre colegas e chefes de gabinete que ele quer; é o pequeno sótão ou estúdio sagrado, as cabeças curvadas, a fumaça do cigarro e o delicioso conhecimento que nós - poucos, uns quatro ou cinco - somos aqueles que conhecem.

[C. S. Lewis]
- de The Weight Of Glory [Peso de Glória]

13 de dezembro de 2013

DA VAIDADE AO ORGULHO

|13 DE DEZEMBRO|

Screwtape mostra a Wormwood como transformar a menor ofensa em um grande pecado

O SUCESSO nesse negócio está em confundi-lo. Se você tentar torná-lo orgulhoso de ser cristão, provavelmente fracassará; todas as advertências do Inimigo [Deus] são por demais conhecidas. Se, por outro lado, você o fizer deixar de lado a ideia de "nós cristãos" e simplesmente o tornar complacente quanto ao "seu grupo", não produzirá orgulho espiritual de verdade, e sim mera vaidade social que, comparativamente, é um pecado pequeno e inútil. O que você deve mesmo fazer é sustentar uma autogratificação disfarçada misturada a todos os pensamentos do seu paciente, sem nunca permitir que ninguém levante a questão: "Sobre o que, precisamente, estou orgulhoso, afinal?". A ideia de pertencer a um círculo fechado, de ser conhecedor de um segredo, é doce feito mel para ele. Bata nessa tecla. Ensine-o, usando a influência dessa garota quando ela afim de forma tola, a adotar uma posição de divertimento a respeito do que os não-crentes dizem. Algumas teorias que podem ser encontradas nos círculos cristãos modernos podem ser bastante úteis nesse ponto; quero dizer, teorias que ponham a esperança da sociedade em algum círculo fechado de "clérigos", alguma minoria de teocratas treinados. Não lhe importa saber se tais teorias são verdadeiras ou falsas; o segredo está em tornar o cristianismo uma religião de mistério, em que o paciente se sinda um dos iniciados.

[C. S. Lewis]
- de The Screwtape Letters [Cartas do Diabo a seu Aprendiz]

12 de dezembro de 2013

DE EXCLUÍDO PARA INCLUÍDO

|12 DE DEZEMBRO|

Screwtape dá instruções a Wormwood sobre como estimular um sentimento de direito

ESSA é a sua chance. Enquanto o Inimigo [Deus], por meio do amor sexual e de algumas pessoas bastante conformadas que já estão bem evoluídas no serviço que prestam, está levando o jovem bárbaro a níveis que ele jamais teria alcançado de outra forma, você tem de fazê-lo sentir que está alcançando o seu próprio nível - que certas pessoas do "seu tipo" e que, ao estar entre elas, ele está em casa. Quando ele for para outra sociedade, ele achará embotada; em parte porque qualquer sociedade ao seu alcance é, de fato, muito menos interessante, mas ainda mais porque ele sentirá falta do encantamento da jovem mulher. Você tem de ensiná-lo a confundir esse contraste entre o círculo de colegas que lhe agrada e o que o entedia, com o contraste entre cristãos e não-cristãos. Ele precisa ser levado a sentir (embora não o deseje traduzir em palavras) "como nós cristãos somos pessoas diferentes"; e por "nós cristãos", ele precisa querer dizer, mas sem se dar conta disso, "meu grupo"; e por "meu grupo" ele não deve querer dizer "as pessoas que na sua caridade e humildade me aceitaram", mas sim "as pessoas com as quais me associo por direito".

[C. S. Lewis]
- de The Screwtape Letters [Cartas do Diabo a seu Aprendiz]

11 de dezembro de 2013

INDO AOS EXTREMOS

|11 DE DEZEMBRO|

Screwtape explica a utilidade do extremismo

EU NÃO esqueci a minha promessa de considerar se devemos tornar o paciente um patriota extremo ou um pacifista radical. Todos os extremos, exceto o da devoção ao Inimigo [Deus], devem ser encorajados. Nem sempre, mas nesse momento. Algumas épocas se mostram calmas e indiferentes, então o nosso negócio é embalá-los em um sono ainda mais profundo. Outras épocas, sendo a presente uma delas, mostram-se desequilibradas e propensas a facciosidade, e então nossa vantagem está em inflamá-la ainda mais. Qualquer grupo pequeno firmemente atado por um interesse em comum, que outras pessoas desgostam ou ignoram, tende a desenvolver dentro de si uma admiração mútua, e em relação ao mundo externo, um montante de orgulho e ódio que são recebidos sem qualquer vergonha, porque a "causa" é o seu patrocinador e as pessoas a consideram impessoal. Mesmo se o pequeno grupo existe originalmente para os propósitos do Inimigo [Deus], isso continuará sendo verdade. Queremos que a igreja continue pequena não apenas no sentido de que menos pessoas possam conhecer o Inimigo [Deus], mas também que aqueles que o conhecerem adquiram a intensidade inquietante e a justiça própria defensiva que caracterizam as sociedades secretas ou os partidos. A Igreja propriamente dita é, evidentemente, bastante protegida e nós jamais sucederemos em lhe atribuir todas as características de uma facção; mas facções subordinadas a ela já produziram resultados admiráveis, desde os partidos que se criaram em torno de Paulo e de Apolo em Corinto, até os das várias denominações em todo o mundo.

[C. S. Lewis]
- de The Screwtape Letters [Cartas do Diabo a seu Aprendiz]

10 de dezembro de 2013

MÚSICA DO DIA [10.12.2013]



Ele escolheu bem as que não são, pra te mostrar que você não é e que não precisa ser o que não precisa...

O HOMEM QUE CONFUNDIU OS MEIO COM OS FINS

|10 DE DEZEMBRO|

O professor conta uma história

- ERA UMA vez uma criatura que veio para cá há pouco tempo e voltou - eles o chamavam de Sir Archibald. Ele não se interessava por nada nesta vida terrena que não fosse a sobrevivência. Ele escreveu tantos livros que encheu uma estante inteira sobre o assunto. [...] Sua ocupação exclusiva passou a ser essa: fazer experimentos, dar palestras, editar uma revista. Ele viajava também: descobrindo histórias fantásticas entre os lamas do Tibete e sendo iniciado nas irmandades da África Central. Provas e mais provas, e depois disso mais outras provas: era tudo o que ele queria. [...] Bem, a pobre criatura morreu em boa hora e veio parar aqui: e não havia poder no universo capaz de impedi-lo de ficar e ir para as montanhas. Mas você acha que isso lhe fez algum bem? De jeito nenhum. Este país não tinha utilidade nenhuma para ele. Todos aqui já tinham "sobrevivido". Ninguém deu a mínima para a questão. Não havia nada para se provar. Sua profissão já não era necessária. É claro que, se ele tivesse admitido que havia errado, trocando os fins pelos meios, e tivesse rido de si mesmo, poderia ter começado tudo de novo como uma criança e encontrando a alegria. Mas ele não quis fazer isso. Ele não ligava nem um pouco para a alegria. No final, ele acabou indo embora.
- Que coisa fantástica! -  disse eu.
- Você acha mesmo? - perguntou o professor, com um olhar penetrante. [...] Já vi homens que se interessavam tanto em provar a existência de Deus, que acabaram se desinteressando por completo do próprio Deus... como se o bom Senhor não tivesse nada para fazer, além de existir! Já vi gente que andava tão ocupada em espalhar o cristianismo, que jamais dedicou um só pensamento a Cristo.

[C. S. Lewis]
- de The Great Divorce [O Grande Abismo]

9 de dezembro de 2013

MELHOR REINAR NO INFERNO

|9 DE DEZEMBRO|

O professor expõe a verdadeira natureza do pecado

- QUE ESCOLHA tem essas almas que voltam (ainda não vi outras)? E como podem fazer sua escolha?
- Milton estava certo - disse o meu professor. A escolha de cada alma perdida pode ser expressa nas palavras: "Melhor reinar no inferno do que servir no céu". Existe sempre algo que insistem em guardar, mesmo sob o preço do sofrimento. Existe sempre alguma coisa que ele preferem à alegria, isto é, à realidade. Pode-se observar isso facilmente em uma criança mimada que prefere perder a brincadeira e o jantar a dizer que sente muito e fazer as pazes. O nome que deram a esse estado de espírito é "mau humor", mas, na vida adulta, ele tem uma centena de nomes refinados - a ira de Aquiles, o orgulho de Coriolano, vingança, mérito e respeito próprio feridos, grandeza trágica e orgulho próprio.
- Então ninguém se perde devido a seus vícios indignos, senhor? Pela simples sensualidade?
- Certas pessoas sim, sem dúvida. O sensualista começa perseguindo um prazer real, por mais ínfimo que seja. Seu pecado é o menor. Porém, chega uma hora em que, embora o prazer diminua e o desejo cresça cada vez mais, embora ele saiba que a felicidade jamais poderá ser alcançada dessa forma, ainda assim ele prefere desfrutar da simples carícia da luxúria insaciável e não é capaz de admitir que isso lhe seja tirado. Ele lutaria até a morte para mantê-la. Ele também gostaria muito de poder se coçar, mas, mesmo se não pudesse mais, preferiria sentir uma comichão a nada.

[C. S. Lewis]
- de The Great Divorce [O Grande Abismo]

8 de dezembro de 2013

SEJA FEITA A SUA VONTADE

|8 DE DEZEMBRO|


O professor explica a nossa capacidade de escolha

"NO FIM das contas, só existem dois tipos de pessoas: as que dizem a Deus: 'Seja feita a tua vontade', e aquelas a quem Deus diz: 'A sua vontade seja feita'. Todos os que estão no inferno, escolheram estar. Sem essa possibilidade de escolha, não poderia haver inferno. Nenhuma alma que deseja séria e constantemente a felicidade poderá perdê-la. Os que a procuram, acham. Para os que batem à porta, ela está aberta".

[C. S. Lewis]
- de The Problem of Pain [O Problema do Sofrimento]

7 de dezembro de 2013

ESCOLHA AGORA, E ESCOLHA CERTO

|7 DE DEZEMBRO|

POR QUE Deus está desembarcando de forma disfarçada neste mundo ocupado pelo inimigo e dando início a uma espécie de sociedade secreta para destruir o Diabo? Por que ele não invadiu à força? Será que ele não é forte o suficiente? Bem, os cristãos pensam que Deus acabará desembarcando à força, só não sabemos quando. Mas não é difícil adivinhar porque ele está demorando. Deus deseja nos dar a chance de ficar ao lado dele livremente. Suponho que não pensaríamos bem de um francês que esperasse até que os aliados estivessem marchando para o interior da Alemanha para só depois anunciar que estava do nosso lado. Deus acabará invadindo. Eu me pergunto se as pessoas que pedem que Deus intervenha aberta e diretamente em nosso mundo já se deram conta de como será quando ele assim o fizer. Quando isso acontecer, será o fim do mundo. Quando o autor caminha para o palco, a peça acabou. Deus acabará invadindo, sem dúvida; mas de que lhe valerá dizer que você está do lado de Deus ao ver todo o universo se derretendo como um sonho, e ver algo mais - algo que você jamais pode imaginar - vindo como um grande estrondo? Algo tão belo para uns e tão terrível para outros, que ninguém terá meios de escapar? Dessa vez estaremos diante de um Deus sem disfarces; algo tão impressionante que suscitará um amor irresistível ou o mais irresistível horror em cada criatura. Então, será tarde demais para escolher de que lado você está. Não há utilidade alguma em dizer que você optou por se deitar, quando não há possibilidade de você se levantar. Essa não será a hora de escolher; será a hora em que acabaremos descobrindo qual dos dois lado escolhemos de fato; não importa se havíamos nos dado conta disso antes ou não. É hoje que nos é dada a chance de escolher o lado certo. Deus está se contendo para poder nos dar essa chance. Mas não será para sempre. É pegar ou largar.

[C. S. Lewis]
- de Mere Christianity [Cristianismo Puro e Simples]

6 de dezembro de 2013

FAÇA A SUA ESCOLHA

|6 DE DEZEMBRO|

NÃO CREIO que todos os que escolhem a estrada errada percebem; contudo, o resgate deles consiste em serem conduzidos de volta à estrada certa. Só podemos corrigir uma soma voltando àquele ponto em que erramos, e não, simplesmente, seguindo em frente. O mal pode ser desfeito, mas ele não pode se "desenvolver" em bem. O tempo não o pode curar. O feitiço tem de ser desfeito aos poucos, "com expressões de poder desagregador" - caso contrário não dá resultado. Continua sendo uma questão de escolha. Se insistirmos em conservar o inferno (ou mesmo a terra), não veremos mais o céu; se aceitarmos o céu, não nos será possível reter nem a menores e mais íntimas lembranças do inferno.

[C. S. Lewis]
- de The Great Divorce [O Grande Abismo]

5 de dezembro de 2013

VISUALIZANDO REFUGOS

|5 DE DEZEMBRO|

VOCÊ deve estar se lembrando de que em determinada parábola os salvos vão para um lugar preparado para eles, enquanto os perdidos vão para um lugar que nunca foi feito para nenhum ser humano (Mateus 25.34-41). Ir para o céu significa tornar-se mais humano do que você jamais foi na terra; ir para o inferno é o mesmo que ser banido da humanidade. O que é lançado (ou se lança) no inferno não são seres humanos: são "refugos". Ser um ser humano completo significa fazer as paixões obedecerem à vontade e oferecer essa vontade a Deus: ter sido um ser humano - ser um ex-homem ou um "fantasma perdido" - provavelmente significa possuir uma vontade completamente voltada para o eu e ter paixões completamente descontroladas pela vontade.

[C. S. Lewis]
- de The Problem of Pain [O Problema do Sofrimento]

4 de dezembro de 2013

VOCÊ É O JUIZ

|4 DE DEZEMBRO|

TENTEMOS ser honestos conosco mesmos. Imagine um homem que tenha ficado rico ou poderoso por meio de uma série de traições e crueldades explorando os sentimentos nobres de suas vítimas com fins puramente egoístas e rindo da ingenuidade delas; que, tendo alcançado o sucesso, faz uso dele para satisfazer a lascívia e o ódio, e finalmente perde o último vestígio de honra entre os malfeitores traindo seus parceiros e zombando de seus derradeiros momentos de desilusão desnorteada.
Suponhamos, ainda, que ele faça tudo isso, não atormentado (como gostaríamos de imaginar) pelo remorso ou pela apreensão, mas comendo como um adolescente e dormindo como uma criança saudável, mostrando-se um homem alegre, de bochechas coradas, sem nenhuma preocupação no mundo. Sempre confiante de que só ele encontrou a resposta para o enigma da vida, de que Deus e o homem são uns trouxas de quem ele se aproveitou muito bem, de que se modo de viver é totalmente satisfatório, bem-sucedido, inabalável. Temos de ser cuidadosos neste ponto. Se dermos espaço ao menor vestígio de paixão vingativa, estaremos cometendo um pecado mortal. A caridade cristã nos recomenda empreender todos os esforços para a conversão de alguém assim: preferir sua conversão, mesmo pondo em risco a nossa própria vida, quem sabe até a nossa própria alma, à sua punição; e preferir isso infinitamente. Mas não é esse ponto. Suponhamos que ele não queira se converter. Que destino eterno você consideraria adequado para ele? Será que você é realmente capaz de desejar que um indivíduo desse tipo, permanecendo do jeito que é (e deverá ter capacidade para tanto, se tiver livre-arbítrio), seja amparado para sempre pela felicidade presente - que ele devesse continuar, por toda eternidade, firmemente convencido de que é ele que dará a última gargalhada?

[C. S. Lewis]
- de The Problem of Pain [O Problema do Sofrimento]

3 de dezembro de 2013

MÚSICA DO DIA [03.12.2013]




The Digital Age - Oh My God/I Am A Seed

Esta banda foi indicada pelo pastor Cleber Barros.

DETESTÁVEL DOUTRINA

|3 DE DEZEMBRO|

ALGUNS não serão redimidos. Não existe doutrina no cristianismo que eu mais adoraria ver extinta do que esta, se eu tivesse esse poder. Porém, ela tem o pleno apoio das Escrituras e, especialmente, das palavras do Nosso Senhor; ela sempre foi sustentada pela cristandade; e está fundada na razão. Sempre que entramos em um jogo, é preciso haver a possibilidade de perdê-lo. Se a felicidade de uma criatura se acha na autoentrega, ninguém será capaz de realizar essa entrega a não ser ela mesma (embora muitos possam contribuir para ela chegar lá) e ela pode até mesmo se recusar. Eu estaria disposto a pagar qualquer preço para poder dizer com sinceridade: "Todos estão salvos". Contudo, a minha razão replica: "Com ou sem o consentimento deles?". Se eu disser: "Sem o seu consentimento", imediatamente percebo a contradição; como pode o ato supremo e voluntário da autoentrega ser involuntário? E se eu disser: "Com seu consentimento", minha razão replica: "Como, se não quiserem ceder?".

[C. S. Lewis]
- de The Problem of Pain [O Problema do Sofrimento]

2 de dezembro de 2013

DEIXADO SÓ

|2 DE DEZEMBRO|

A LONGO prazo, a resposta a todos os que apresentam objeções contra a doutrina do inferno é, em si mesma, uma pergunta: "O que você quer que Deus faça?". Apagar os pecados por eles cometidos no passado e dar-lhes uma nova chance, aliviando todas as dificuldades e oferecendo uma ajuda milagrosa? Deus já fez isso no Calvário. Perdoá-los? Eles não serão perdoados. Abandoná-los? Sim, temo que seja isso o que ele faz.
Só mais uma advertência para encerrar o assunto. Para se despertar as mentes modernas para os temas aqui tratados, ousei introduzir a figura de um homem mau a quem facilmente reconhecemos como mau. Porém, depois que essa figura tiver feito o seu serviço, é melhor que seja esquecida o quanto antes. Em todas as nossas discussões sobre o inferno, devemos manter firmemente diante dos olhos a possível condenação, não de nossos inimigos nem de nossos amigos (pois ambas só confundem a nossa razão), mas a nossa própria. Esse texto não fala da sua esposa nem do seu filho, nem de Nero ou de Judas Iscariotes; fala de você e de mim.

[C. S. Lewis]
- de The Problem of Pain [O Problema do Sofrimento]

1 de dezembro de 2013

AS PORTAS DO INFERNO

|1 DE DEZEMBRO|

OBJETA-SE que a perda última de uma única alma significaria a derrota da onipotência. E é isso mesmo. Ao criar seres com livre-arbítrio, a onipotência submeteu-se desde o começo à possibilidade de tal fracasso. Chamo de milagre o que você chama de derrota, porque fazer coisas que não são ele mesmo, tornando-se assim, num certo sentido, capaz de encontrar resistência por parte da obra de suas próprias mãos, é o mais surpreendente e inconcebível dos feitos que podemos atribuir à divindade. Estou disposto a acreditar que, de certa forma, os perdidos são rebeldes que sucederam até o fim; que as portas do inferno se encontram trancadas por dentro. Não quero dizer que os fantasmas não queiram sair do inferno da mesma forma imprecisa que uma pessoa invejosa "deseja" ser feliz: mas eles certamente não alcançarão sequer os estágios preliminares daquele autoabandono necessário para uma alma atingir qualquer bem. Eles gozam para sempre a horrível liberdade que haviam exigido, e são, portanto, escravos de si mesmos; da mesma maneira que os justos, que se submetem à obediência para sempre, tornam-se cada vez mais livres, por toda a eternidade.

[C. S. Lewis]
- de The Problem of Pain [O Problema do Sofrimento]

30 de novembro de 2013

A PIEDADE TEM DE SER ANIQUILADA?

|30 DE NOVEMBRO|

O professor revela os aspectos malignos da piedade

- MAS SERÁ que alguém ousaria dizer - é horrível dizer - que a piedade deve ser aniquilada?
- Você precisa distinguir. A ação da piedade durará para sempre, mas não a paixão da piedade. A paixão da piedade, seu aspecto simplesmente emocional, a dor que leva o homem a admitir o que não deve ser admitido e a bajular quando deveria dizer boas verdades, a piedade que induziu muitas mulheres a perderam a virgindade e muitos estadistas, a honestidade - essa morrerá. Ela foi usada por homens perversos como uma arma contra os bons, mas essa arma será destruída.
- E qual é o outro tipo - a ação?
- É a arma que está do outro lado. Ela salta mais rápido do que a luz, do lugar mais alto ao mais baixo, trazendo cura e alegria, não importa o custo que isso possa ter para si mesma. Ela transforma a escuridão em luz e o mal, em bem. Porém, as falsas lágrimas vindas do inferno não a levarão a transformar em bondade a tirania do mal. Toda doença que for submetida à cura será curada, mas nós não chamaremos o azul de amarelo somente para agradar aqueles que insistem em continuar tendo icterícia, nem transformaremos em esterco o jardim do mundo por causa de alguns que não conseguem suportar o cheiro das rosas.

[C. S. Lewis]
- de The Great Divorce [O Grande Abismo]

29 de novembro de 2013

O INFERNO VETA O CÉU?

|29 DE NOVEMBRO|

O professor expõe o esquema de boicote

- O QUE certas pessoas dizem na terra é que a perda de uma só alma invalida toda a alegria dos que já foram salvos.
- Você pode ver que não é isso que acontece.
- Mas sinto como se tivesse que ser assim.
- Isso soa muito misericordioso, mas observe bem o que se esconde por trás disso.
- O quê?
- O pressuposto de que os desprovidos de amor e os aprisionados em si mesmo tenham permissão de boicotar o universo; de que, até que eles consigam ser felizes (em seus próprios termos), ninguém mais deve sentir o gosto da alegria; de que o poder final está em suas mãos; de que o inferno é capaz de vetar o céu.
- Eu não sei bem o que quero, senhor.
- Meu filho, filhinho querido, deve ser de um jeito ou de outro. Ou virá o dia em que a alegria prevalecerá e todos os promotores de miséria não serão mais capazes de frustrá-la, ou eles sempre conseguirão destruir nos outros a felicidade que rejeitam para si mesmos. Eu sei que soa bem dizer que você não aceitará nenhuma salvação que deixe uma só criatura na escuridão do lado de fora. Mas preste bem atenção naquela sutileza, ou você acabará transformando um cão deitado em uma manjedoura do ditador do universo.

[C. S. Lewis]
- de The Great Divorce [O Grande Abismo]

28 de novembro de 2013

O LUGAR DA FINALIDADE E DA ESCURIDÃO

|28 DE NOVEMBRO|

[UMA] objeção [ao conceito de inferno como punição infligida por Deus] é que nenhum homem caridoso seria capaz de viver uma vida abençoada no céu enquanto tivesse consciência de uma única alma ainda a vagar pelo inferno; mas será que isso nos torna mais misericordiosos do que Deus? Por trás dessa objeção existe uma imagem mental de céu e inferno coexistindo em um tempo linear unidimensional, semelhante à coexistência das histórias da Inglaterra e da América, de modo que os bem-aventurados pudessem dizer a qualquer hora: "As misérias do inferno estão acontecendo agora mesmo". Porém, percebo que, quando o Nosso Senhor enfatiza os terrores do inferno com tamanho rigor, geralmente não enfatiza a ideia de duração, e sim de finalidade. A entrega ao fogo destruidor é geralmente tratada como o fim da história, e não como o começo de uma história nova. Não há dúvida de que a alma perdida está eternamente ligada à sua atitude diabólica; mas não fazemos a mínima ideia se essa ligação eterna implica uma duração interminável - ou qualquer duração que seja. [...] Sabemos muito mais sobre o céu do que sobre o inferno, pois o céu é o lar da humanidade e, portanto, contém tudo o que está implícito em uma vida humana gloriosa. Acontece que o inferno não foi feito para o homem; o inferno não é de forma alguma paralelo ao céu; trata-se, porém, da "escuridão lá fora", da área em que o ser se desvanece no nada.

[C. S. Lewis]
- de The Problem of Pain [O Problema do Sofrimento]

27 de novembro de 2013

MAIS DIA, MENOS DIA, ELES CAIRIAM

|27 DE NOVEMBRO|

NÃO SABEMOS quantas dessas criaturas Deus fez, nem por quanto tempo elas continuariam no estado paradisíaco. Contudo, mais dia, menos dia, elas cairiam. Alguém ou alguma coisa lhes sussurrou no ouvido que poderiam se tornar deuses, que poderiam deixar de direcionar suas vidas ao Criador, e de aceitar todos os prazeres como dádivas não declaradas; como "acidentes" (no sentido lógico) que apareceram no decorrer de uma vida que haviam devotado a adorar a Deus e não a tais prazeres. Da mesma forma que um jovem deseja do pai uma mesada que possa considerar sua para fazer seus planos (e com razão, pois seu pai, no final das contas, é uma criatura companheira), eles também buscaram ser independentes, cuidar do futuro deles, planejar por prazer e por segurança, ter algo que pudessem chamar de "seu", do qual sem dúvida pagariam um tributo razoável a Deus em termos de tempo, atenção e amor; mas que em todo caso fosse deles e não de Deus. Os jovens querem, como se costuma dizer, ser "donos do seu próprio nariz". Porém, isso significaria viver uma mentira, porque na verdade, nosso nariz não é, de fato, nosso. O desejo deles era conquistar algum lugar no universo, a partir do qual poderia dizer a Deus: "Esse negócio é nosso e não seu". Mas não existe um lugar assim. O desejo deles era se tornar sujeitos. Mas eles eram, e sempre serão, simples complementos.

[C. S. Lewis]
- de The Problem of Pain [O Problema do Sofrimento]

26 de novembro de 2013

COMPARANDO CÃES E GATOS

|26 DE NOVEMBRO|

O MUNDO não consiste em cem por cento de cristãos ou em cem por cento de não-cristãos. Há pessoas (uma grande quantidade delas) que estão lentamente deixando de ser cristãs, mas que ainda utilizam esse nome; algumas são religiosas. Já outras pessoas estão lentamente virando cristãs, embora ainda não respondam por esse nome. Há pessoas que não aceitam toda a doutrina cristã sobre Cristo, mas que se sentem tão atraídas por ele que pertencem a ele num sentido muito mais profundo do que são capazes de entender por si mesmas. Há pessoas em outras religiões que estão sendo levadas pela influência secreta de Deus a concentrarem-se naquelas partes da sua religião que estão de acordo com o cristianismo, e que, dessa maneira, pertencem a Cristo sem sequer darem conta disso. Por exemplo, um budista com boa vontade poderá ser levado a se concentrar mais e mais no ensinamento budista sobre misericórdia e a deixar de lado os ensinamentos budistas sobre outros pontos (por mais que possa dizer que acredite neles). Muitos pagãos bons, bem antes do nascimento de Cristo, podem ter estado nessa posição. E é claro, sempre há uma grande quantidade de pessoas que só está com a mente confusa, sustentando várias crenças inconsistentes, todas misturadas. Consequentemente, não é muito útil tentar julgar cristãos e não-cristãos na multidão. Pode até ser útil querer comparar cães e gatos ou até mesmo homens e mulheres, porque nesses casos é possível distinguir definitivamente quem é quem. Além disso, nenhum animal se transforma (nem lentamente, nem de uma hora para outra) de cão para gato. Porém, quando comparamos cristãos e não-cristãos de forma genérica, geralmente não estamos pensando nas pessoas reais que conhecemos, e sim em duas ideias vagas que extraímos das novelas e dos jornais.

[C. S. Lewis]
- de Mere Christianity [Cristianismo Puro e Simples]

25 de novembro de 2013

LIVROS PARA ADULTOS

|25 DE NOVEMBRO|

NÃO HÁ necessidade de se preocupar com pessoas brincalhonas que tentam ridicularizar a esperança que os cristãos depositam no "céu" dizendo que elas não querem "passar a eternidade dedilhando harpas". A resposta a esse tipo de gente é que, se elas não conseguem entender livros escritos para adultos, não deveriam ficar falando sobre eles. Toda a simbologia bíblica (harpas, coroas, ouro, etc.) não passa, claro, de uma tentativa simbólica de expressar o inexprimível. Os instrumentos musicais são mencionados porque, para muitas pessoas (nem todas), são na vida presente que o melhor reflete e sugere êxtase e eternidade. As coroas são mencionadas para sugerir que todos os que se encontram unidos a Deus na eternidade compartilham do seu esplendor, poder e alegria. O ouro é mencionado para sugerir a infinitude (ouro não enferruja) e a preciosidade do céu. As pessoas que entendem esses símbolos literalmente podem achar que, quando Cristo nos disse para sermos como pombas, ele pediu que botássemos ovos.

[C. S. Lewis]
- de Mere Christianity [Cristianismo Puro e Simples]

24 de novembro de 2013

MIRE O CÉU

|24 DE NOVEMBRO|

A ESPERANÇA pertence às virtudes teológicas. Isso significa que olhar constantemente para frente, rumo ao mundo eterno, não é nenhuma forma de escapismo (como pensam alguns modernos) ou de pensamento positivo, e sim algo que se espera que um cristão faça. Isso não significa que devamos deixar o mundo presente do jeito que está. Se você observar a história, descobrirá que os cristãos que mais fizeram pelo mundo presente foram exatamente aqueles que mais pensavam no que há por vir. Os próprios apóstolos, que deram o pontapé inicial para a conversão do Império Romano, os grandes homens que fortaleceram a Idade Média, os evangélicos ingleses que lutaram pela abolição da escravatura, todos eles deixaram as suas marcas nesta terra exatamente porque as suas mentes estavam ocupadas com o céu. Foi exatamente quando os cristãos pararam de pensar no outro mundo que eles eles se tornaram pouco efetivos neste. Mire o céu e terá a terra por "acréscimo"; mire a terrá e não terá nenhuma das duas coisas. Parece-me uma regra estranha, mas algo parecido acontece em outros assuntos. A saúde é uma grande benção, mas no momento em que você a transforma em um dos seus principais objetivos, começará a se tornar um excêntrico, imaginando que há algo errado com você. Você só terá saúde se também desejar outras coisas - comida, jogos, trabalho, diversão, ar puro. Da mesma forma, nunca teremos chance de salvar a civilização enquanto ela foro nosso principal objetivo. Temos de aprender a desejar algo a mais.

[C. S. Lewis]
- de Mere Christianity [Cristianismo Puro e Simples]

23 de novembro de 2013

É ERRADO DESEJAR O CÉU?

|23 DE NOVEMBRO|

HOJE em dia somos tímidos para falar do céu. Tememos a zombaria por causa do "paraíso celestial" e tememos ser acusados de tentarmos "fugir" do dever de fazer o mundo feliz aqui e agora por meio de sonhos com um mundo feliz em outro lugar. Mas das duas, uma: ou o "paraíso celestial" existe ou não. Se não existir, conclui-se que o cristianismo é falso, pois essa doutrina está profundamente amarrada a toda a trama cristã. Se existir, então é verdade e, como qualquer verdade, ela deve ser encarada, não importa o quanto venha a ser útil aos encontros políticos, ou não. Mais uma vez, tememos que o céu seja uma persuasão e que se fizermos dele nosso alvo, acabaremos nos tornando meros interesseiros. Porém, não é assim. O céu não oferece nada que uma alma mercenária possa desejar. É seguro dizer aos puros de coração que eles verão a Deus, porque só os puros de coração querem vê-lo. Certas recompensas não deturpam os motivos. O amor de um homem por uma mulher não é mercenário só porque ele deseja casar-se com ela; nem o amor pela poesia é mercenário porque ele está ansioso para lê-la; nem o amor pelo exercício é mais interesseiro porque ele quer correr, saltar e andar. O que o amor busca, por definição, é a apreciação do seu objeto.

[C. S. Lewis]
- de The Problem of Pain [O Problema do Sofrimento]